terça-feira, 21 de junho de 2011

O terror e a tradição ocidental


O nazismo e o comunismo são produtos do Ocidente moderno. E o mesmo se aplica ao islamismo radical, embora o fato seja negado por seus seguidores e pela opinião pública ocidental. O fundador intelectual do islamismo radical é Sayyd Qutb, intelecutal egípcio executado por Nasser em 1966. Seus escritos evidenciam a influência de muitos pensadores europeus, especialmente Nietzsche, e estão cheios de idéias tomadas de empréstimo à tradição bolchevique. Sua concepção de uma vanguarda revolucionária empenhada na derrubada de regimes islâmicos corruptos e no estabelecimento de uma sociedade sem estruturas formais de poder nada deve à teologia islâmica e deve muito a Lenin. Sua visão de violência revolucionária como força purificadora em mais em comum com os jacobinos do que com os assassinos do século XII. Os assassinos matavam governantes que consideravam extraviados do verdadeiro caminho do islã; mas não consideravam que o terror fosse um elemento de aperfeiçoamento da humanidade, nem via a autodestruição e atentados suicidas como fator de pureza pessoal. Essas idéias só surgiram no século XX, quando os pensadores islâmicos passaram a sofrer influências européias. Ali Shariati - que antecedeu aiatolá Khomeini como líder dos fundamentalistas iranianos exilados durante o reino do xá - considerava o martírio um elemento central do islã, mas sua concepção do martírio como opção pela morte derivava da moderna filosofia ocidental. A redefinição fundamentalista do xiismo enunciada por Shariati invocava a idéia de escolha existencial derivada de Heidegger.

Trecho de:

Gray, John. Missa negra: religião apocalíptica e o fim das utopias. Rio de Janeiro: Record, 2008
Imagem: Internet

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