terça-feira, 21 de junho de 2011

Mais champanhe, por favor


Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E não é mero truísmo

João Pereira Coutinho / Folha de S. Paulo


BARBARA GANCIA dedicou-me a sua última coluna aqui nesta Folha ("Santo dr. Kevorkian", 17/6/2011). É sempre um prazer lê-la. Mas que fiz eu para despertar a amigável ira da colunista?
Simples: terei escrito um texto "tinhoso" onde encontrei uma "saída fácil" para o problema da eutanásia ("Champanhe e ópio", 13/6/2011).

Pior ainda: usei Oscar Wilde, e sua combinação letal de champanhe e ópio, para defender que uma sociedade civilizada alivia a dor de quem sofre, e não mata quem sofre.

Barbara Gancia tem outra opinião. Ou, para sermos exatos, duas.

A primeira baseia-se em amigos seus que, padecendo de Aids, não embarcaram em boemias; agarraram-se antes "ao que é mais comezinho" e tentaram comemorar cada manhã como um milagre.

Como é evidente, o meu texto não lidava com esses casos; lidava, relembro, com situações terminais, onde a dor é insustentável, e a opção é tripla: continuar sofrendo; aliviar esse sofrimento com "champanhe e ópio" (uma metáfora paliativa, claro); ou matar pura e simplesmente o doente.

O segundo caso apresentado pela colunista, porém, merece outra reflexão: trata-se do pai de Barbara Gancia, que "agonizou" dois anos num hospital com Alzheimer. Não teria sido preferível ministrar-lhe o "método Kevorkian", ou seja, e com todas as letras, matá-lo?

Infelizmente, não é possível discutir temas éticos quando eles são apresentados como prolongamentos de experiências pessoais.

Se tal fosse possível, ou até desejável, só haveria um castigo no mundo para quem comete homicídios: a pena de morte. Se Barbara Gancia tem dúvidas, sugiro-lhe que pergunte à família das vítimas.

Mas o erro de Barbara Gancia não está apenas em tornar universal o que é do domínio pessoal. Existe um erro maior na defesa de que um médico "pode desafiar a lei".

Essa, aliás, teria sido a proeza de Jack Kevorkian, um pioneiro da eutanásia e do suicídio assistido e, segundo Gancia, um "santo".

Sobre o pioneirismo de Kevorkian, nada a dizer: há pioneiros para tudo. Mas estranho a "santidade" dele, sobretudo quando se sabe que Kevorkian não se limitou a matar (ou a fornecer os instrumentos de morte) a doentes irrecuperáveis ou terminais.

Jack excedeu esses limites e, mais que uma vez, despachou para o outro lado gente que estava longe dessas situações extremas. Ou, mais grave ainda, gente que nem sequer estava realmente doente.

Moral da história? Qualquer manual de ética médica dirá que a função da medicina é curar, não matar. E isso não é um mero truísmo.

Quando se afirma que a vocação da medicina é curar, e não matar, o que se afirma é que existem limites à ação dos médicos. E esses limites são importantes porque os médicos detêm literalmente um poder de vida e morte sobre outros homens.

Daniel Callahan, conhecido filósofo que tem escrito sobre bioética, é ainda mais claro sobre esse ponto: a proibição da eutanásia e do suicídio assistido, que vigora na esmagadora maioria dos países, não se deve apenas à "imoralidade" do ato.

Deve-se também à necessidade de proteger os doentes de "santos" como o dr. Kevorkian.

Regresso ao início: champanhe e ópio. Quando Oscar Wilde abandonou os tratamentos e encomendou a sua farra final, sabia que a farra seria final. Mas Wilde não foi caso único. Hoje mesmo, enquanto escrevo, existem famílias em quartos de hospital que se confrontam com o mesmo dilema. E que também sabem que certas doses de opióides acabam por apressar o fim inevitável.

Existe um termo técnico para isso -eutanásia do duplo efeito. E há quem diga que ela não se distingue da eutanásia ativa e voluntária pois o fim, ainda que colateral, é o mesmo. Sim, talvez o fim seja o mesmo; mas os meios são diferentes.

E quando imagino Oscar Wilde no seu quarto de Paris, eu não o imagino a morrer de fome ou de sede, como acontece quando se suspendem os suportes vitais de um doente. Nem o imagino em espasmos de agonia, como acontece aos pacientes que viajam para a Suíça e, muitas vezes, são gaseados nas clínicas da morte. Com o meu romantismo "tinhoso", prefiro imaginar o velho Wilde com uma taça na mão, bebendo champanhe e nunca pentobarbital sódico.

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