segunda-feira, 20 de junho de 2011

A liberdade das vadias

Já que o Supremo Tribunal Federal liberou as marchas dos maconheiros com o argumento de que a liberdade de expressão e reunião abarca tais manifestações, foi com o estandarte da liberdade que “ativistas” se exibiram para as câmeras de TV em mais de 40 cidades do país no último sábado, incluindo Fortaleza.

Ativistas entre aspas porque foi assim que o Jornal Nacional os chamou (devem ser colegas do Cesare Battisti). O assunto dá preguiça, então o ignoro e passo a um tema um pouco menos entediante. Além de maconheiros, as marchas reuniram feministas. Foram fazer o quê? Lutar contra o machismo, naturalmente. Umas sete ou oito mulheres jovens de classe média pra cima vestiram-se de prostitutas. Duas ou três descartaram o último resquício de caretice e desfilaram logo com os peitos de fora, garantindo imagens transgressoras para o Facebook.

A coisa se chama marcha das vadias. É a última invenção das feministas, essas criaturas adoráveis que lutam contra o que não existe mais. O caso que as motivou, em suma, é o seguinte: um policial do Canadá disse que muitos estupros poderiam ser evitados se as mulheres não se vestissem como “vadias”, no termo dele. Imediatamente a consciência politicamente correta da mulherada crispou-se de revolta contra o porco-chauvinista.

E então as feministas do Canadá marcharam seminuas, saias berrantes, maquiagem aloprada, numa encenação de meretrício, fingindo serem autênticas vadias e exigindo o respeito masculino enquanto tais. Ah, quantas não ferviam de gratidão íntima para com o policial que lhes ofereceu o pretexto para o teatrinho.

Ato contínuo, outras passeatas foram organizadas no mundo ocidental, onde as mulheres já têm a liberdade que fingem não ter, e têm há muito tempo . “A gente quer lutar pelo direito de ir e vir na rua sem ser atacada por estar usando uma roupa curta”, informou aos telespectadores do Jornal Nacional uma participante da marcha das vadias de Belo Horizonte, com expressão de pessoa inteligente.

Imediatamente fui à minha janela e fiquei aguardando que lá embaixo, na rua, passasse uma mulher. Não demorou a aparecer uma, e eu logo temi por sua integridade, pois a qualquer momento ela seria surpreendida por um homem que inevitavelmente a estupraria. Acompanhei sua caminhada com uma angústia crescente, até que não pude me conter. “Sai daí, sai daí”, berrei da janela, “todo homem é estuprador, corre!”. Com o apelo tentei limpar a imagem do meu gênero, mas foi em vão. A mulher já estava longe demais para ouvir. “Com certeza foi atacada ao dobrar a esquina”, pensei impotente.

Bruno Pontes - Jornalista / O Estado

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