quarta-feira, 15 de junho de 2011

Artistas do exílio

Memorial dedicado a judeus que vieram para o Brasil será inaugurado na casa onde Stefan Zweig se suicidou há 70 anos

Cristina Romanelli


Zweig, em foto de 1940, dois anos antes de sua morte / Divulgação

Nenhum judeu que veio para o Brasil durante o Holocausto causou tanta polêmica quanto o escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942). Apesar de ter ficado pouco tempo aqui, ele lançou um livro em que elogiava entusiasticamente o país, foi alvo de duras críticas e se suicidou junto com a mulher. Em agosto, completam-se 70 anos do lançamento do livro "Brasil, país do futuro" e, em fevereiro de 2012, 70 anos da morte do casal. Alguns eventos devem lembrar os acontecimentos, mas a principal novidade, no segundo semestre deste ano, é a abertura da casa onde Zweig se suicidou, em Petrópolis, Região Serrana do Rio de Janeiro. Ali funcionará um memorial que homenageará os intelectuais exilados no país durante a Segunda Guerra Mundial.

Ainda não se sabe quantos intelectuais de origem judaica fugiram para o Brasil. Pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer), da USP, estão há dois anos fazendo um inventário. “Até ano que vem vamos ter uma lista com cerca de 150 nomes, mas ainda estamos fazendo um levantamento. Eram muitos imigrantes, e eles tiveram larga produção acadêmica”, diz Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Leer. Alguns exemplos são o tradutor e linguista húngaro Paulo Rónai (1907-1992) e o fotógrafo alemão Hans Günter Flieg, que entre 1945 e 1988, quando se aposentou, produziu cerca de 35 mil fotos que documentam o desenvolvimento industrial e urbano de São Paulo.

Zweig também teve uma vasta produção. Escreveu em diversos estilos literários, como contos, novelas, biografias e peças de teatro. Uma de suas obras mais comentadas é "Brasil, país do futuro", lançada em 1941, e que teve oito edições quase consecutivas. Por ter elogiado tanto o país, correu o boato de que Zweig teria sido comprado pelo governo. “Ele era um utopista. Depositava muita esperança no futuro do Brasil e no resto da América do Sul. E era muito rico, não precisava desse dinheiro”, defende o jornalista Alberto Dines, um dos principais idealizadores do projeto Casa Stefan Zweig, em Petrópolis, e autor de "Stefan Zweig: no país do futuro – A biografia de um livro" (Editora EMC, 2009).

As polêmicas que envolvem o livro e outros episódios da vida do escritor serão contados na casa de Petrópolis. O espaço foi comprado graças à ajuda de admiradores dos artistas exilados. Lá haverá uma biblioteca de referência em vários idiomas, alguns manuscritos, cartas e um filme sobre a morte do casal. “A casa é pequena, não tem como ter muita coisa. O principal será o material audiovisual”, conta Dines.

Segundo Maria Luiza, este será o primeiro espaço dedicado a artistas judeus exilados no país. “Já houve algumas exposições, como ‘Brasil: um refúgio nos trópicos’, que de vez em quando ainda é exibida. Mas os museus judaicos não trabalham especificamente esse tema”, lembra. Ainda não há data certa para a inauguração, mas, segundo Dines, as obras na casa estão a todo o vapor, e já no segundo semestre ela poderá ser visitada.

Sabia Mais

Casa Stefan Zweig
Rua Gonçalves Dias, 34. Bairro Valparaíso – Petrópolis (RJ)
http://www.casastefanzweig.org/

Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer/USP)
http://leer.vitis.uspnet.usp.br/

Arquivo Virtual Arqshoah (projeto do Leer/USP)
http://www.arqshoah.com.br/


Fonte: Revista História

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