quarta-feira, 1 de junho de 2011

Alice Cooper: "Eu sou um bom garoto cristão"

Alice Cooper se define como "Darth Vader do rock" Foto:Hermann J. Knippertz/AP

Luís Bissigo | Zero Hora

Com voz rouca e serena, Alice Cooper conversou por telefone com Zero Hora no último dia 21, em meio à turnê No More Mr. Nice Guy — naquele dia, ele e sua banda iriam tocar em Sylvania, Ohio, e já projetavam os preparativos para a etapa sul-americana da viagem, com escalas em Chile, Argentina e Brasil. Cortês sem abrir mão da ironia, ele — sempre se referindo a "Alice Cooper" na terceira pessoa, como um personagem — falou da expectativa de voltar ao Brasil, soltou algumas farpas para as bandas de rock da atualidade, adiantou detalhes de seu próximo disco — Welcome 2 My Nightmare, sequência do clássico Welcome to My Nightmare, de 1975 — e lembrou do encontro recente com a cantora Lady Gaga, não por acaso uma de suas fãs. Confira aqui os principais trechos da entrevista.

Zero Hora — Qual é a sensação de voltar ao Brasil? Quando foi a última vinda?

Alice Cooper — Estive aí há uns quatro, cinco anos. Mas a primeira vez foi em 1973 ou 1974. Foi a maior plateia em um lugar fechado, em todos os tempos: 168 mil pessoas, em São Paulo. O engraçado foi que no outro dia, no jornal, havia uma baita foto minha com a cobra, e estava escrito: "Macumba". E eu nem sabia o que era macumba. Depois me explicaram o que era. E eu sou um bom garoto cristão (risos). Sempre que ficamos sabendo que vamos ao Brasil, ficamos empolgados. Todos querem ir ao Brasil. Eu posso falar que estamos indo à Rússia, ou à Europa, mas quando digo que estou indo ao Brasil, todos dizem: "Uau! Queria ir."

ZH — É muito diferente tocar aqui do que na Rússia, por exemplo?

Alice — Sim, sim. As plateias russas são bem fãs de hard rock e heavy metal. Eles ficaram tanto tempo privados da música que ficam muito felizes de ter bandas de rock por lá. E o Brasil é um país musical, o lar de Antonio Carlos Jobim, Astrud Gilberto, Sepultura, pessoas assim. Um grande espectro musical, da bossa nova ao heavy metal.

ZH — Sim. As pessoas gostam muito de heavy metal aqui.

Alice — Sim. E acho que o pessoal vai curtir o nosso show. É rock bem pesado, 25 músicas, com todos os hits.

ZH — Mas há também coisas novas, não?

Alice — Sim. Na verdade, estamos tocando uma música que ainda não foi lançada. É do novo disco, a segunda parte do Welcome to My Nightmare, se chama I'll Bite Your Face Off.

ZH — E como tem sido tocá-la ao vivo?

Alice — É bem incomum: as plateias já andam cantando o refrão. Na hora em que tocamos o refrão pela segunda vez, o pessoal já está cantando junto. Acho que é um bom sinal de que o pessoal está curtindo a música.

ZH — Como surgiu essa ideia de uma sequência para Welcome to My Nightmare?

Alice — Eu estava planejando fazer um novo projeto com Bob Ezrin, que produziu o primeiro Welcome to My Nightmare, ali por 1975 ou 1976 (o disco saiu em 1975). Nós começamos a conversar e ele lembrou que já haviam se passado 30 anos desde aquele disco. E eu disse: "E se fizéssemos outro pesadelo, diferente daquele?". Aí começamos a escrever canções, e logo tínhamos umas 16, 17 músicas.

ZH — Então é um pesadelo terrível novamente?

Alice — Sim, um bom pesadelo, bem interessante. O curioso é que estamos sempre levando a música a diferentes patamares e lugares, mas no fim é sempre o rock pesado do Alice Cooper.

ZH — E você pode adiantar alguma coisa sobre o disco, ou é tudo surpresa?

Alice — É que eu acho meio difícil falar de música. Se você conhece Alice Cooper, sabe que é sempre uma banda de rock pesado. Então, a maior parte do disco é rock pesado, mas tem também algumas músicas estranhas, excêntricas. Tem muitos convidados participando também. Mas temos também alguns segredos. O disco vai sair em outubro, perto do Halloween.

ZH — Qual foi a sensação ao trabalhar nesse disco? Havia a intenção de trazer de volta o clima do primeiro Nightmare?

Alice — Sabe, eu não acho que a música mude muito. O tipo de música que fazemos não sofreu grandes mudanças. É rock'n'roll, e sempre tentamos torná-lo interessante. Tentamos fazer letras que façam a plateia imaginar coisas interessantes. Então, se você está falando de um pesadelo, você pode ir em qualquer direção, é algo bem surreal, bem Salvador Dalí, com muitas imagens.

ZH — E como será levar isso para o palco?

Alice — Vamos fazer um espetáculo no qual cada canção terá seus próprios elementos cênicos. Quando fizemos o primeiro Welcome to My Nightmare, a questão era: como dar vida àquilo no palco? Bem, iríamos precisar de uma cama no palco, então teria de ser uma cama de aparência bem assustadora. Coisas que viviam sob a cama iriam aparecer e sair dançando em volta — então eu tinha quatro dançarinos profissionais, de jazz e balé. Fizemos algo bacana, e pretendemos fazer isso agora também.

ZH — Você é um dos artistas que inventou essa maneira de levar o teatro para o rock'n'roll. Como isso começou?

Alice — O engraçado é que os caras da banda original, todos, também estavam envolvidos com arte. Éramos todos grandes fãs do Salvador Dalí. E na verdade chegamos a trabalhar com ele, em 1972 ou 1973. Fiz um projeto com ele. Ele via Alice Cooper como algo surrealístico, e nós também achávamos isso. A ideia era que Alice Cooper não fosse só uma banda, mas também deveria ser uma peça de teatro. Desde o início, não queríamos ser heróis do rock'n'roll — queríamos ser os vilões do rock'n'roll. E foi isso que projetamos para Alice Cooper, uma espécie de Darth Vader do rock'n'roll (risos).

ZH — E isso se tornou muito influente nas décadas seguintes, para muitos artistas...

Alice — ... sim. Rob Zombie, Slipknot... Até a Lady Gaga foi bastante influenciada pelos nossos discos e pelos nossos shows. A Lady Gaga é uma grande fã de Alice Cooper.

ZH — E você já teve a oportunidade de falar com ela sobre isso?

Alice — Oh, sim. Eu a vi em um show em Phoenix. Depois do show, ela me disse: "Muito obrigada por nos deixar roubar o seu espetáculo!". Eu disse que ela não roubou o show, mas que eu gostava o fato de ela ser influenciada por ele.

ZH — Não seria a ocasião para uma colaboração entre vocês?

Alice — Não. Mas não digo que isso não venha a acontecer. Eu gostaria de compor algumas canções com a Lady Gaga. Mas acho que seria mais puxando para o rock, não tanto para o dance.

ZH — Para você, fazer os shows é mais importante que gravar os discos?

Alice — As coisas andam juntas. Você não pode fazer as coisas teatrais se não tiver a música para isso. É como se você vai ver o West Side Story (musical americano inspirado em Romeu e Julieta): se eles não tivessem as canções, o espetáculo não seria tão bom. Eu acho que, primeiro, você compõe a música. Eu chamo isso de fazer um bolo: você prepara um grande bolo e aí coloca a cobertura por cima. Para nós, o lado teatral é a cobertura. Mas você tem que ter o bolo primeiro. Você tem que escrever muitas boas canções antes de querer fazer o teatro.

ZH — Isso é a essência de tudo?

Alice — Sim. A qualidade é tudo para nós. O Bob Ezrin nunca iria nos deixar incluir uma canção (no disco) apenas para ocupar espaço. Ele diz que toda canção tem que ser uma música em que todos acreditemos, estejamos convictos dela, de que seja realmente musical — que realmente se possa cantá-la, não apenas gritá-la. Tem muito rock'n'roll por aí que são bandos de garotos gritando para você, em vez de comporem boas músicas.

ZH — Você tem essa impressão, por exemplo, do rock'n'roll feito hoje?

Alice — Acho que as bandas de rock'n'roll hoje parecem ser muito sensíveis, delicadas. Parece que têm medo de usar sua testosterona. Nas bandas do nosso tempo, a coisa toda do rock'n'roll era: é algo que vem da virilha, e não do cérebro (risos). E agora parece que todas as bandas são tímidas, parecem ter medo de fazer um rock mais forte.

ZH — Você acha que isso tem a ver com a tendência do politicamente correto?

Alice — Sim. Eu não acredito nem um pouco em correção política. Quando as pessoas me dizem que sou politicamente incorreto, digo que sou politicamente incoerente (risos).

ZH — Parece impossível ser totalmente correto politicamente...

Alice — Sim, você fica tão correto que se torna um robô. Você tem que cuidar o tempo inteiro o que vai dizer, é como estar o tempo todo com medo. Acho que estão tentando nos encaixotar. Eu tenho um amigo que leciona na Universidade do Arizona, e ele me disse: "Se eu entro na sala de aula e digo a uma garota: 'Oh, que belo vestido', posso ser demitido, porque ela iria dizer que isso é assédio sexual. Mas tudo o que eu disse é que gostei do vestido!". Você poderia sofrer acusações de assédio só por elogiar o cabelo de alguém, ou os sapatos. Isso se torna uma maldição.

ZH — E seus shows representavam um choque para as pessoas, nos anos 1970, ou mesmo agora?

Alice — Nos anos 1970, era uma coisa meio assim, não queriam permitir que as pessoas fossem aos shows de Alice Cooper. O engraçado é que não havia nada no show para ser vetado. Nunca fiz nada ilegal — nada de nudez ou linguagem chula, por exemplo. E as pessoas inventavam histórias sobre Alice Cooper, e logo todo mundo estava acreditando.

+ Alice Cooper diz “sou um cristão normal”‎


dica do André Magister

Um comentário:

Anônimo disse...

Essas múmias de vez em quando descem aqui no país para ganhar mais algum fio-metal de trouchas.
Disse que esteve aqui pela 1ª vez em 73´. Nunca deveria ter voltado.
Se diz cristão. O quê????
E ainda é fã de Lady GagÁ?!?!?
Até satanás se traveste de anjo de luz, quando quer.