terça-feira, 10 de maio de 2011

Terrorismo é vaidade


Os ataques de 11 de Setembro inauguraram a indústria da sabedoria islamita instantânea

João Pereira Coutinho - Folha de S. Paulo

CERTO DIA visitei o "museu do terrorismo" do Centro de Informações Meir Amit, em Israel. Aconselho.
O "museu" não será propriamente um Louvre ou um Metropolitan. Mas permite contemplar, em vitrines legendadas, o tipo de material que os militares israelenses confiscam em seus "raids" contra grupos terroristas. Foguetes, sim. Metralhadoras, também. E bazucas. E bombas artesanais.

Mas o melhor do passeio está no material "didático" (digamos assim) que os "mártires" deixam ficar para os vivos.

No Ocidente, as nossas crianças colecionam figurinhas colantes de jogadores de futebol, atores, cantores. No estranho mundo do terrorismo suicida, crianças de igual idade levam para a escola álbuns coloridos com imagens dos que morreram pela causa.

Existem sinistras semelhanças entre esses "mártires" e as nossas celebridades. Todos são jovens. Todos assumem uma pose blasé. No caso dos "mártires", a pose é refinada por uma AK-47 empunhada com orgulho.

É também possível admirar pôsteres de tamanho generoso onde estão reunidos os melhores atentados terroristas e, claro, os seus brilhantes autores. Uma espécie de "best of" a exigir adoração. E imitação.

Não dá para acreditar? Pois não, leitor, não dá. Eu próprio falei com alguns nativos (palestinos inclusos) e confessei pasmo e horror.

Inútil tanto pasmo e horror. Faz parte do negócio, disseram-me: antes do grande dia (tradução: antes do massacre indiscriminado de civis em restaurantes ou discotecas), o "mártir" tira fotos e grava vídeos. Só não concede autógrafos porque o inimigo sionista está atento e convém não abusar.

Curiosamente, essa cultura de morte e de celebração da morte está bem retratada no filme (palestino) do diretor (palestino) Hany Abu-Assad. Chama-se "Paradise Now". Também aconselho.

E aconselho mais: prudência. Os ataques de 11 de Setembro inauguraram uma indústria profícua: a indústria da sabedoria islamita instantânea. Livros, artigos, conferências -não faltam especialistas de todas as cores ou feitios dispostos a explicar a mente terrorista. A explicar e a desculpar.

O terrorismo existe porque a pobreza existe. O terrorismo existe porque os Estados Unidos existem. O terrorismo existe porque Israel existe. O terrorismo existe porque a religião existe. O terrorismo existe porque a alienação social existe. O terrorismo existe porque a doença mental existe.

Ausente de tanta sabedoria está uma hipótese mais banal e mais humana: o terrorismo existe porque a vaidade existe. E o terrorista participa no ritual da morte porque encontra nesse ritual uma consagração pop que o redime de todos os fracassos passados e terrenos. São os seus 15 minutos de fama. É a sociedade do espetáculo levada até às últimas consequências.

E Osama bin Laden sabia disso. Tudo foi escrito sobre a morte de Osama. Mas o melhor dessa morte foi revelado agora pelos Estados Unidos: vídeos caseiros confiscados durante o ataque. E com Bin Laden no papel principal.

É ver para crer: o mais famoso terrorista do mundo em sua casa, com barba grisalha e feições envelhecidas; mas olhando ainda com orgulho para imagens televisivas das suas atrocidades.

Há algo de infantil nos vídeos caseiros de Bin Laden; há algo de obscenamente pueril na forma como aquele homem contempla, envaidecido, os produtos do seu próprio horror; há algo de fascinante e repugnante na forma como ele sorri interiormente sempre que o seu nome é proferido pelos jornalistas.

Sem falar da versão construída para consumo midiático: sabemos também, por meio dos vídeos, que aquele velho pintava de preto a barba e o cabelo para lançar as suas diatribes retóricas contra o Ocidente; sabemos que ensaiava os discursos, que se enganava, que recomeçava. E que finalmente acertava, na pose e no tom. As televisões só emitiam o "take" perfeito.

Nesses momentos, imagino Osama gritando da sala: "Meninos, venham ver o vosso pai na TV!". Imagino a família Bin Laden, reunida em frente à telinha, como se Osama fosse um mero concorrente do Big Brother. Imagino a sra. Bin Laden, orgulhosa do seu homem, e sussurrando-lhe ao ouvido com entusiasmo adolescente: "Osaminho, você continua sendo a minha estrela de cinema favorita".

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