segunda-feira, 16 de maio de 2011

Revelação do WikiLeaks: Guantánamo funciona

Programa de interrogatórios da CIA, criticado por muitos, permitiu ações contra a liderança da Al-Qaeda

Donald H. Rumsfeld, The Washington Post - O Estado de S.Paulo

A morte de Osama bin Laden nas mãos de forças de operações especiais americanas é um grande sucesso na guerra dos Estados Unidos contra a Al-Qaeda. Em consequência do programa de interrogatórios da CIA e das informações secretas obtidas dos detidos na prisão da Baía de Guantánamo, Cuba, uma grande fração da liderança principal da Al-Qaeda tem sido capturada ou morta desde 2001.

Essa conclusão foi inadvertidamente reforçada há pouco tempo pela revelação ilegal, pelo WikiLeaks, de mais de 700 arquivos confidenciais do Departamento de Defesa americano sobre os presos em Guantánamo. Sua publicação prejudicou nossa segurança e consolidou entre aliados a impressão de que os Estados Unidos são incapazes de manter segredos. Mas o material fornece também evidências convincentes sobre a eficácia das políticas antiterror do governo George W. Bush após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Os arquivos ilegalmente divulgados, além de uma série de documentos não confidenciais sobre políticas americanas de detenção postada em http://www.rumsfeld.com/ , registram decisões complexas e acordos penosos que o presidente Bush e autoridades de segurança nacional tiveram de fazer. Eles documentam as técnicas e intenções mortais de centenas de detidos em Guantánamo que ainda desejam retornar à luta e a faina de analistas e interrogadores que nos permitiram impedir novos ataques.

É preciso tempo. Reunir informações de inteligência é um processo difícil. Alguns dados vêm de uma forma imediatamente acionável. Em geral, o significado de uma determinada informação, seja fornecida por agentes de alto ou baixo escalão, não se torna visível durante meses ou anos, como ocorreu com o esforço de muitos anos para costurar as informações que levaram as forças americanas a Bin Laden.

Os arquivos confidenciais da Baía de Guantánamo, particularmente os do agente sênior Abu Faraj al-Libi, contêm pistas sobre a rede de mensageiros da Al-Qaeda e até menciona Abbottabad. Se Bin Laden tivesse analisado atentamente a divulgação pelo WikiLeaks desses documentos em 25 de abril, é improvável que ele estivesse lá quando os Seals da Marinha americana desceram em seu complexo dias depois.

Os documentos primários são a melhor evidência pública até agora de nossos esforços sistemáticos para averiguar laços dos detidos com o terrorismo e pesar os perigos de sua potencial libertação ou repatriamento. Numa guerra em que os inimigos terroristas dos Estados Unidos se escondem entre civis e não carregam abertamente suas armas, a questão não é se alguns erros infelizes de detenção são cometidos, mas se há proteções apropriadas para detectar erros e corrigi-los quando descobertos.

De acordo com os arquivos no WikiLeaks, os presos que não puderam ser retidos com base em evidência suficiente foram soltos ou transferidos para outros países. Entre os que não foram considerados uma ameaça e acabaram libertados, um número considerável retornou à causa que havia afirmado renegar - entre eles um homem que, após Guantánamo, se tornou vice-líder do ramo da Al-Qaeda no Iêmen; um veterano combatente taleban; um propagandista de uma revista online da Al-Qaeda; e vários terroristas suicidas.

Os papéis confidenciais conferem textura às conspirações terroristas que até agora não eram conhecidas pelo público. Documentam a agitação da Al-Qaeda nos meses após o 11 de Setembro para tentar lançar outro ataque, ainda mais cruel.

Um comandante da Al-Qaeda jurou detonar uma bomba atômica nos Estados Unidos se Bin Laden fosse capturado ou morto. Khalid Sheik Mohammed prometeu um "inferno nuclear".

Os documentos confirmam as aspirações nucleares e tentativas de comprar urânio da Al-Qaeda. Relatam uma série de complôs envolvendo agentes químicos e biológicos: cianureto espalhado por sistemas de ar-condicionado em edifícios públicos; gás natural detonado em apartamentos alugados; e uma bomba "suja" detonada num centro urbano.

Os documentos também devem desmentir alguns mitos que perseguiram Guantánamo e as reputações dos que honradamente servem ali. O registro confidencial, por exemplo, confirma até que ponto os guardas militares acomodaram sensibilidades religiosas muçulmanas: soando chamados para as orações cinco vezes ao dia, fornecendo refeições halal (elaboradas segundo os preceitos islâmicos) e só tocando nos livros do Alcorão com luvas - não os jogando na privada e dando descarga como foi falsamente afirmado por uma revista americana. Não houve nenhuma política de maus tratos, muito menos tortura.

Vidas expostas. A divulgação dessas informações confidenciais comprometeu fontes e métodos da inteligência, colocando vidas em risco. Os documentos indicam, por exemplo, que alguns membros da Al-Qaeda mudaram de lado e revelaram grandes quantidades de informações sobre seus colegas. A cooperação de um informante iemenita - solto depois disso - que delatou dezenas de colegas presos como membros da Al-Qaeda, agora é pública, tornando-o vulnerável a retaliações.

O material nesses arquivos deveria ser assunto de histórias futuras, não das manchetes de hoje. Eu copatrocinei a Lei de Liberdade de Informação de 1966 e acredito há longa data que o livre fluxo da informação é vital para a democracia, mas o desejo de transparência precisa ser contrabalançado pelos interesses de segurança nacional. Os servidores do governo George W. Bush têm muito a ganhar com a divulgação desse tipo de registro, mas, para o benefício dos Estados Unidos, ela deve ser feita no momento oportuno e pelos canais apropriados.

Julian Assange esperava que sua mais recente jogatina com as vidas de profissionais da inteligência, pessoal militar e informantes terroristas embaraçaria o governo americano e inibiria sua capacidade de atacar os inimigos.

Mas os documentos do WikiLeaks, combinados com o que sabemos agora a respeito de como o esconderijo de Bin Laden foi descoberto, podem estar entre as mais claras justificativas das políticas do governo Bush na luta para proteger a América e o mundo livre de ataques terroristas. Podem se mostrar os argumentos mais fortes para que se mantenha aberto o valioso ativo que é a prisão da Baía de Guantánamo. / Tradução de Celso M. Paciornik

Foi Secretário de Defesa dos Estados Unidos entre 1975 e 1977 e entre 2001 e 2006

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