segunda-feira, 30 de maio de 2011

Igreja Católica aposta em megatemplo para 100 mil


Antes de ficar pronto, espaço de Marcelo Rossi tem dívida de IPTU de R$ 1 milhão

Templo, construído com recursos de doações e venda de CDs e livros do padre-cantor, deve ser concluído em dezembro

Daniel Roncaglia / Folha de S. Paulo

Quinze anos após surgir como fenômeno católico, Marcelo Rossi, 44, está perto do mais importante projeto da sua carreira de padre-cantor. Até dezembro, ele espera celebrar a 1ª missa na igreja que tenta erguer desde 2006 na zona sul de São Paulo.

Chamado de Santuário Theotókos ("Mãe de Deus" em grego), o espaço poderá receber até 100 mil pessoas -o maior em capacidade da Igreja Católica no país.

A obra segue a tendência da ala carismática da igreja, como o movimento Canção Nova, que tem estrutura própria e um centro de evangelização para 70 mil pessoas em Cachoeira Paulista (SP).

O santuário é feito com o dinheiro que Marcelo Rossi recebe de doações e de seus produtos. Mesmo com a vendas dos 10 milhões de discos e das 4 milhões de cópias de seu livro "Agapé", a construção se arrasta há seis anos.


Dívida de R$ 1 mi
Os valores não são revelados pela Associação do Terço Bizantino, que administra a construção. Só de IPTU do terreno no período, a dívida passa de R$ 1 milhão, segundo a prefeitura.

O presidente da associação, Dráusio Barreto, afirma que o padre decidiu fazer a nova igreja para abrigar seu público com conforto.

Sobre o IPTU, Barreto, que também trabalha como secretário dos Serviços da prefeitura, lembra que igrejas são isentas da cobrança. A ideia é recorrer da dívida.

"O padre ainda celebra missas no chão de fábrica", diz, lembrando que atual sede é um galpão adaptado.
Na manhã de domingo, cerca de 8.000 fiéis ocupavam a antiga fábrica adaptada em uma das quatro missas semanais em São Paulo.

"Para quem aqui o "Agapé" se tornou livro de cabeceira?", perguntou Rossi na missa da noite de quinta-feira. "É dez", completou diante do sinal positivo do público.

Desde 2007, o padre diz todo ano que irá inaugurar a igreja em dezembro. "Ele acredita, pela providência divina, que isso vai acontecer de verdade. O problema é que temos de fazer a obra a conta-gotas", diz Barreto.

O arquiteto Rui Ohtake, que projetou o novo santuário, afirma que apenas com a cobertura e o piso cimentado a igreja já pode funcionar.

Além do palco de 430 m2, a igreja terá mais de 500 banheiros e estacionamento para 2.000 carros.
Mais próxima das casas de espetáculos, a igreja do padre faz parte da orientação que ganhou força na Igreja Católica após o Concílio do Vaticano, em 1962.

Outras religiões
Esse tipo de megaestrutura não é exclusividade dos católicos. A Igreja Universal do Reino de Deus está fazendo uma sede que pretende reproduzir o Templo de Salomão, na zona leste. Segundo o bispo Edir Macedo, a igreja irá ocupar 70 mil m2 de área construída. No Rio, a Universal já dispõe de um templo para 12 mil fiéis.

A Igreja Deus É Amor afirma ter reunido 60 mil em seu templo no centro de São Paulo. Desde 1995, a Igreja Messiânica está também instalada em SP em uma área que pode reunir até 30 mil fiéis.


Orientação do Vaticano é que se invista em qualidade, não em quantidade de fiéis


Hélio Schwartsman

É um pouco estranho ver a Igreja Católica erguer um templo com capacidade para 100 mil pessoas, quando a orientação oficial do Vaticano tem sido a de investir mais na qualidade do que na quantidade de fiéis.

É o próprio Bento 16 quem não se cansa de repetir que a igreja não pode transigir com a preservação dos valores essenciais do cristianismo, por mais impopular que seja.

Acrescente-se a isso o significativo crescimento das igrejas neopentecostais na América Latina e temos um paradoxo: como pode a Igreja Católica, em tempos de concorrência feroz, dar-se ao luxo de sacrificar fiéis?

Um bom modelo (não religioso) para entender o que está em jogo é o dos memes, que são unidades de informação cultural capazes de propagar-se por mentes humanas de modo análogo àquele pelo qual genes se perpetuam em seres vivos. Exemplos são a tecnologia, a moda, as piadas e a própria religião.

Como pode uma ideia, que é imaterial, reproduzir-se como um organismo biológico?

Não chega a ser um problema. As ideias, afinal, partilham com os genes as características fundamentais da evolução: variação, competição e possibilidade de, com diferentes graus de sucesso, replicar a si mesmas através de vetores que, no caso das religiões, são fiéis, clérigos e livros sagrados.

Como medir o sucesso de um meme religioso? Agregar um bom rebanho é importante. Uma religião sem fiéis está condenada. No máximo sobrevive em enciclopédias. Mas existem outras formas de morte religiosa. Uma delas é sofrer um número tão grande de mutações que acabe por descaracterizá-la.

Isso já ocorreu. O cristianismo, por exemplo, se apropriou de genes de outros credos e teve tanto sucesso que acabou por matar fés das quais emprestou elementos. Um exemplo é o culto a Mitra, antes tão popular entre os legionários romanos, do qual o cristianismo tirou o mito do nascimento virginal.

É por isso que sacerdotes, além de converter pessoas, precisam também zelar pela "pureza" do DNA religioso. Para o papa, aceitar os termos impostos pela concorrência implicaria abrir mão de características que ele considera fundamentais para o catolicismo.

Assim, ele fez sua escolha pelo "pauci, sed boni" (poucos, mas bons). Prefere uma igreja com menos fiéis, mas mais fiéis à doutrina. Se a estratégia vai dar certo é um outro problema.

Um comentário:

Anônimo disse...

E a maioria dos católicos desta terra de Banânia horrorizam-se quando avistam mega-templos evangélicos.
Católicos, tirem a trave de seus olhos, hipócritas!