terça-feira, 3 de maio de 2011

Escritor narra em livro convivência com gangues skinheads

Anna Virginia Balloussier
Folha de S. Paulo

O avô espanhol de David Vega, 22, lutou no lado de Hitler na Segunda Guerra. O garoto cresceu ouvindo histórias sobre o conflito mundial, numa casa onde discussões sobre nazismo e fascismo nunca foram tabu.

David espichou, e sua curiosidade pelo assunto também. Entre 2005 e 2007, "para pesquisar", ele mergulhou de cabeça --devidamente raspada-- na cultura skinhead.

A experiência é narrada em "Cadarços Brancos" (editora Giostri, 2010).

Na obra, o escritor faz um apanhado histórico do movimento, que nasceu da convivência entre imigrantes jamaicanos e o proletariado inglês, nos anos 60.

O livro não é em primeira pessoa: a vida real dá pitacos, mas bastante coisa ali é ficção, a começar pelo nome dos personagens.

Na obra, um jovem fala sobre o "êxtase indescritível" de ler "Mein Kampf" (minha luta, em alemão), a "Bíblia nazista" de Adolf Hitler.

David nunca foi skin, mas conviveu com vários integrantes do movimento, inclusive os nacionais-socialistas. Viu de perto a rotina do grupo, com grande concentração de neonazistas.

O "uniforme" era coturno e suspensório sobre camisa branca --imagine Alex, o ultraviolento protagonista de "Laranja Mecânica", requentado no microondas do século 21.

O "modus operandi" consistia em tumultar espaços públicos e espancar os "inferiores" --como são considerados gays, negros e nordestinos. Não é só lero-lero: neonazis são suspeitos de explodir uma bomba na Parada Gay de 2009.

Certa vez, conta David, eles foram da Praça da Sé à Galeria do Rock, no centro de São Paulo. "Eles passaram a implicar com todas as pessoas que eram punks ['rivais' do skin] e homossexuais."

Colar panfletos pela rua, perto da porta de escolas e de estações do metrô, também era hábito. A meta: espalhar os ideais do movimento que venera o número 88. Oitava letra do alfabeto, o H dobrado vira HH, de "Heil Hitler" --praticamente um "bom dia" entre adoradores do Führer.

"[Skins] se consideram soldados. Mais importantes do que o exército. Querem conservar a família e são bem reacionários", descreve.

"A cultura é violenta. É a teatralização da violência", admite David.

Fonte: Folha de S. Paulo


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