sexta-feira, 6 de maio de 2011

Elomar Figueira Mello: Poeta do sertão

O músico Elomar narra histórias de fé e poesia que fazem de sua obra um testemunho da caatinga

Kika Antunes/Divulgação

É no semiárido do sudoeste da Bahia que, aos 73 anos, o poeta e músico Elomar Figueira Mello alia os momentos de criação artística aos deleites da vida no campo, na fazenda Casa dos Carneiros, no município de Vitória da Conquista. A partir de diversas influências da cultura local e tendo a Bíblia como maior fonte inspiradora, o poeta é um dos mais importantes compositores brasileiros em atividade e tem um cancioneiro de mais de 300 músicas gravadas em diversos discos, incluindo composições de música erudita, concertos e óperas.

Sua produção literária também já chama atenção. O romance de cavalaria Sertanílias é o primeiro de uma série do autor, que tem outros três prontos, mas ainda inéditos. Descendente direto do bandeirante e sertanista João Gonçalves da Costa, fundador, em 1783, do Arraial da Conquista, hoje a cidade de Vitória da Conquista, Elomar se apresenta desde 1975 por todo o território nacional, inclusive com orquestras, quintetos, quartetos e outras formações sinfônicas.

Avesso à exposição midiática, preferiu a vida reclusa, longe das grandes metrópoles. Mesmo assim, sua obra teve repercussão em âmbito internacional. Em depoimento sobre a obra Campo Branco, Elomar conta um pouco sobre o processo criativo que lhe permite tamanho mergulho nesse sertão profundo.

Religião

Na verdade, não busco o sincretismo em minha obra. Quando críticos pensam que minha fé é católica, não conseguem se distanciar para entender que o eu lírico é independente do autor. Posso falar algo através do católico, que é o violeiro, mas minha fé, fundamentalmente, é protestante. Sem sombra de dúvida, sem concessão nenhuma, sou protestante. É uma tradição da minha família de uma ancestralidade de quatro ou cinco gerações.

A cultura vaqueira e o próprio sertão são muito ligados à palavra de Deus. Nunca fui conhecer a Palestina, a Terra de Israel, mas, pelo que já vi e pelo que conheço de geografia, história e até filmes, é um caatingão igual ao nosso.

Poesia

A miscelânea que origina a minha poesia é uma somatória de influências e, claro, isso inclui a Bíblia. Sempre recomendei para um poeta novo, que quer encontrar mesmo o embrião da poesia mesmo, a leitura da Bíblia. Se um dia ele quer fazer uma obra bonita de verdade, respeitável, que faça como todos os grandes poetas: leia o livro de Jó, o profeta Isaías, o rei Davi, Salomão, os evangelhos, aquilo que vem da boca de Deus.

A essência da poesia está na Bíblia. A palavra de Deus é de uma poesia tão imensa que Goethe, não só ele, mas todos os autores medievais que escreveram sobre Fausto foram buscar inspiração na Bíblia. Não tem nada mais belo, mais grandioso ou mais altissonante do que a história de Jó. Todas as obras-primas que os homens fizeram, em literatura, pintura, escultura, música, partiram do Sagrado. Eu, que sou um cristão ocidental, parti da palavra de Deus.

Campo Branco

Os meus amigos diretores de teatro sempre me disseram que qualquer canção minha era teatral. Elas têm cenas suscetíveis de serem montadas em teatro. Existe uma análise muito fecunda de Campo Branco, feita por Simone Guerreiro, em um trabalho de doutorado chamado Tramas do Sagrado: a Poética do Sertão de Elomar.

Ela considerou toda a paisagem que os versos mostram e a poética de um sertão de agruras. Em determinado momento, ela questiona como é que de dentro de tamanha aridez sai uma poética dessa altissonância. A canção chama Campo Branco porque o nome dela seria Caatinga, que é uma palavra formada por vocábulos indígenas.

“Caa” quer dizer mato e “tinga” é branco. A caatinga, quando chega o período da seca, perde todo o verde e vai ficando acinzentada. Em nome da alta temperatura, as plantas deixam de ser verdes e ficam esbranquiçadas, para não refletir a luz do sol.

Criação

O meu processo é meio incerto. Às vezes, chega a letra e depois a música e, às vezes, é o contrário. Porém, são poucos retoques. É um tipo de criação de escrever à vontade, sem estar preso a regras. É como se eu estivesse abrindo a boca e falando, deixando fluir. Quando estou escrevendo uma canção é um tormento, porque o homem tem uma sede urgente de buscar a perfeição. Ninguém se conforma em fazer qualquer coisa. O importante é fazer o melhor.

No meu cancioneiro, os personagens são apanhados de uma antiguidade clássica e encaixados dentro do meu circunstancial. Já no romance de cavalaria, invento os personagens e eles vão para aqueles tempos antigos. De qualquer forma, todo autor cria personagens nos quais ele busca se projetar, em realizações que seriam impossíveis em sua realidade política e econômica. Trato de um sertão profundo, que está em outro tempo, em outra geografia. Só os ciganos conseguem entrar nesse sertão profundo, só eles têm a chave.

Melodia

A minha rítmica é bem brasileira. Trabalho em cima do samba, da seresta, do xaxado, do baião, do coco, dentro desses ritmos. Já a parte melódica tem base em módulos nordestinos, módulos urbanos, seresteiros e tem leves pitadas de tango argentino. É amálgama de um canto muito ancestral. Tenho um dom que Deus me deu de fechar os olhos, lá no sertão, e me isolar, entrar em clausura. Mesmo estando aqui, em São Paulo, na rua ou dentro de uma festa, consigo entrar em uma clausura dentro de mim.

Tenho a impressão de que ouço aquelas melodias lá longe, muito longe. Tem alguns trechos que você ouve e pensa: “Meu Deus, de onde que o Elomar trouxe essa melodia?”. Eu mesmo fico procurando e sei que é algo de muito longe, distante mesmo.

Vitória da Conquista

Uma semana antes da minha formatura em arquitetura, em Salvador, vasculhei a cidade inteira à procura da minha professora de violão clássico. Apesar de ter estudado apenas três meses, ela achava que eu era o modelo de violinista clássico. Quando a encontrei e disse que estava atrás dela, ela disse a mesma coisa e me mostrou uma carta.

Andrés Segovia tinha se aposentado, em Madri, e aberto uma escola de violão. Havia uma bolsa para o Brasil, justamente para a Bahia, e tinha chegado às mãos dela. Então ela me disse que tinha guardado a bolsa para mim, dentre todos os alunos que passaram por ela. Eram dois anos, tudo pago, sustentado pelo governo espanhol.

Fiquei muito sem jeito para falar, mas disse que não tinha condições, porque não tinha vontade de ir para a Europa. Na hora ela não acreditou e disse que eu estava louco de rejeitar essa bolsa. Daí, eu falei: “Professora, eu não vou, sabe por quê? Se eu for para a Europa, vou tocar com as grandes orquestras do mundo e vou ser um violinista famoso e tudo isso, mas tenho que voltar pro sertão, porque tenho que escrever a música minha do sertão.”

Se eu não tivesse voltado para o sertão, teria feito alguma coisa, mas não com essa inteireza. Queria escrever a partir das minhas circunstâncias, porque sempre vi grande beleza no sertão.

“Quando estou escrevendo uma canção é um tormento terrível, porque o homem tem uma sede urgente de buscar a perfeição”

Fonte: Revista E


+ Peregrinos do sertão profundo: uma etnografia da música de Elomar Figueira Mello

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