sábado, 7 de maio de 2011

Bin Laden mereceu e ação foi eticamente válida, diz filósofo alemão

Graça Magalhães-Ruether, correspondente

O Globo

BERLIM - Para o filósofo alemão Ottfried Höffe, da Universidade de Tübingen, apesar das irregularidades, a ação americana foi válida do ponto de vista do Direito Internacional porque o chefe terrorista era um perigo para a Humanidade. Ele comparou Osama bin Laden a Adolf Hitler, lembrando que ninguém teria criticado Claus Schenk von Stauffenberg se ele tivesse conseguido matar o ditador alemão em 1944.

O que o filósofo Immanuel Kant diria sobre o assassinato de Bin Laden?
OTTFRIED HÖFFE: Kant estaria de acordo com o governo americano. Embora muitos pensem o contrário, ele era a favor da pena de morte. O chefe de uma organização terrorista que causou a morte de tantas pessoas mereceu ser morto. O único erro, na minha opinião, foi ele ter sido executado sem ser submetido a um julgamento. Por outro lado, trata-se de uma guerra contra o terrorismo e em uma guerra as coisas são um pouco diferentes do que em tempos de paz. Além disso, Bin Laden é comparável a Adolf Hitler. Se alguém tivesse conseguido assassinar Hitler, como Claus Schenk von Stauffenberg tentou em 1944, ninguém teria nada contra essa ação do ponto de vista ético.

Os crimes de Bin Laden são comparáveis aos que foram cometidos pelo ditador nazista?
HÖFFE: Eu diria que há diferenças. Hitler mandou matar sistematicamente uma etnia, seis milhões de judeus. Ele declarou guerra contra quase toda a Europa. Mas Bin Laden é parecido com Hitler, um criminoso que não dava nenhum valor à vida humana. O atentado contra Hitler de 1944 foi precedido de uma grande discussão entre os integrantes do grupo, se seria correto, do ponto de vista ético. O atentado fracassou e os seus autores foram todos condenados à morte. Mas se o plano tivesse funcionado, ninguém discutiria hoje a "culpa" dos assassinos de Hitler. Temos agora na Alemanha a crítica da Igreja Católica à chanceler Angela Merkel, que se mostrou feliz com o assassinato de Bin Laden. Normalmente, não é correto se dizer feliz com a morte de uma pessoa. Mas Bin Laden era diferente pelo perigo que representava para o Ocidente.

Na sua opinião, foi correta, do ponto de vista do Direito Internacional, a ação militar em um país estrangeiro, assim como fez Israel com Adolf Eichmann, na Argentina, há cerca de 50 anos?
HÖFFE: De acordo com os princípios de soberania do Direito Internacional, não. Mas devemos refletir sobre a situação específica. Naquela época, o governo argentino tolerou a ação de agentes israelenses, que capturaram Eichmann e o levaram diretamente para Israel, sem um julgamento e um pedido oficial de extradição, porque tratava-se de um assassino de milhões de pessoas.

Já na descoberta do esconderijo de Bin Laden, os americanos usaram meios ilegais, pois torturaram informantes para obterr a informação...
HÖFFE: Nada justifica a tortura. Um Estado não tem o direito de usar os instrumentos dos criminosos, e a tortura é um instrumento criminoso.

O senhor acha correta a decisão do presidente Obama de não divulgar a foto de Bin Laden morto?
HÖFFE: Não sei dizer se é correta ou não. Mas eu imagino que os americanos tentem evitar que, com a divulgação da foto, Bin Laden adquira para os seus adeptos a imagem de um mártir. Uma outra hipótese é que os integrantes da unidade especial que mataram o chefe terrorista agiram com tanta sede de vingança pelos atentados de 11 de Setembro que seria motivo de vergonha mostrar o terrorista morto.

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