segunda-feira, 18 de abril de 2011

Vale quanto ensina

Em países onde a educação vai bem, professor é uma profissão valorizada e os salários iniciais equivalem ao de carreiras como a de engenheiro

Adriano Vizoni/Folhapress
Lee Sing Kong, diretor do NIE de Cingapura, em seminário em São Paulo na semana passada

Juliana Doretto
"Nos países onde os alunos têm os melhores resultados nos testes padronizados internacionais [como o Pisa], a remuneração dos professores se encontra no nível dos salários de engenheiros e médicos", afirma o pesquisador americano Philip Fletcher, membro do Conselho Consultivo da Avalia Educacional, do grupo Santillana.

Cingapura, por exemplo, ocupa a segunda posição no ranking de matemática do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), prova que envolve 65 países.

Em ciência, o país está na quarta colocação e em leitura, na quinta. O Brasil fica em 57º em matemática, em 53º em ciência e em 53º em leitura, no Pisa 2009.

Um dos pilares do sucesso educacional do país é o investimento em seus professores, que começam a ensinar pelo mesmo salário de um engenheiro contratado pelo governo -cerca de US$ 2.500 por mês.
"Além de transmitir conhecimentos, os professores devem ajudar os estudantes a descobrir seus talentos", diz o professor Lee Sing Kong, diretor do NIE (Instituto Nacional de Educação, em inglês), órgão ligado ao Ministério da Educação.

Kong falou com a Folha antes e durante sua estadia em São Paulo, onde participou, na semana passada, de um seminário internacional para contar como a valorização da profissão docente gera resultados positivos na educação.

O NIE forma cerca de 2.000 docentes ao ano: dois terços deles já têm diploma superior e fazem pós-graduação de um ano em educação; os demais cursam bacharelados de quatro anos. Enquanto estudam, os professores recebem salário. A formação é obrigatória para os profissionais da rede pública.

MODELOS DE SUCESSO
Mas a valorização do papel do professor é preocupação globalizada e foi tema da primeira Cúpula Internacional da Profissão Docente, realizada nos EUA em março, que reuniu representantes de 16 países, como Brasil, Finlândia, Cingapura e China.

"Na Finlândia, a seleção dos profissionais não se baseia apenas na sua competência cognitiva, mas dá igual importância a seu potencial de liderança, seus valores éticos, sua disposição para ensinar, sua habilidade de comunicar e de se relacionar bem", afirma Fletcher, que já foi consultor do MEC.

Além disso, em países onde a educação vai bem, "os professores têm ampla autonomia no desempenho de suas atividades didáticas para alcançar alunos com diversos estilos de aprendizagem". Para ele, tal autonomia reafirma aos professores seu profissionalismo, "o que sustenta sua estima e respeito na comunidade".

Para José Francisco Soares, da UFMG, nem todas as fórmulas podem ser aplicadas de modo imediato no Brasil, cuja carreira docente é a priori desprestigiada. "A forma como a sociedade trata o professor é como coitadinho. Temos de dar a ele a chance de ser profissional."

ENTREVISTA

Em Cingapura, docente ganha para se formar
Leia a seguir trechos da entrevista que Lee Sing Kong, diretor do NIE, o instituto nacional de formação de professores. Ele veio ao país para participar do Seminário Internacional de Práticas Inovadoras para a Educação.

Folha - Como professores podem subir na carreira?

Lee Sing Kong - Os professores são avaliados anualmente. Esse processo ajuda-os a orientar seu desenvolvimento profissional. Quem tem bom desempenho é promovido.

O NIE também desenvolve novas práticas de ensino. Como isso funciona?

A capacidade dos professores precisa ser construída antes que qualquer mudança possa ser introduzida. Depois de adotada em algumas escolas, é ampliada para as outras.

As escolas também trabalham com metas, não é?

Temos um modelo que orienta sobre como planejar metas e estratégias. Mas cada escola pode definir seus objetivos, com autonomia de traçar o ritmo de desenvolvimento. A cada cinco anos, ela passa por avaliação. (JD)

Fonte: Folha de S. Paulo

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