segunda-feira, 25 de abril de 2011

A radicalização do bullying

por Jorge Eduardo Scarpin - Instituto Millenium

Nos últimos meses, a questão do bullying tem sido tratada de maneira intensa na imprensa do mundo todo. Praticamente tudo está sendo culpa do bullying, principalmente em grandes tragédias. Em 2007 um estudante sul-coreano da universidade de Virgínia, EUA, matou mais de trinta pessoas sem motivo. Depois, descobriu-se que ele era extremamente quieto, reservado e que era vítima de bullying. Semanas atrás, tivemos a grande tragédia em Realengo, RJ, onde 12 crianças foram cruelmente assassinadas por um ex-aluno, e já se especula que tenha sido vítima de bullying.

Aramis A. Lopes Neto traz uma definição de bullying que pode ser entendido como “todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder.”

Antes de qualquer discussão, sou totalmente contrário ao bullying propriamente dito quando este traz dificuldade de convívio social e de aprendizagem. Porém, temos que compreender que todo excesso é ruim, visto que há uma enorme dificuldade em se diferenciar o bullying de um comportamento normal de um grupo de pessoas e, em uma visão rígida do tema, qualquer comportamento de um grupo contra outro é denominado bullying.

É normal da natureza humana formar grupos de convívio social definidos por diversos fatores, tais como, raça, credo, posição social, ideologia partidária, preferências musicais etc. Com isso barreiras são formadas para entrada de pessoas que não compartilham dos mesmo valores dentro do grupo, gerando muitas vezes, o isolamento ou a agressão verbal desferidas contra membros de outros grupos, o que, na vida adulta, chamamos de debate. Quantas vezes já ouvimos um grupo de pessoas que gostam de música sertaneja falar mal dos que preferem rock ou vice-versa? E discussões políticas ou religiosas então?

O estranhamento também faz parte da evolução do ser humano. Aprender a lidar com esses acontecimentos na infância fará com que, na vida adulta, a pessoa tenha suporte para o enfrentamento de acontecimentos que também poderão ocorrer com constrangimentos e agressões verbais. O que me parece é que para tudo precisamos de uma avaliação, explicação, e uma definição e, sinceramente, não sei se o ser humano consegue ser tão simplista assim.

Durante a infância e adolescência, com raras exceções como as citadas no começo deste texto, o bullying chega, no máximo, a brigas isoladas, o que deve ser frontalmente combatido, pois, o comportamento violento pode gerar terríveis consequências para a sociedade no futuro, como guerra de gangues, grupos neonazistas, violência contra minorias etc. Se nossas crianças e adolescentes forem isolados do bullying, que são, na maioria das vezes, “agressões” verbais, estaremos preparando-os para a vida ou colocando-os em uma redoma de vidro que, sem dúvida nenhuma, um dia irá se romper? Ou será que estamos provendo uma desculpa para todo comportamento inadequado, visto que a pessoa só fez isto, visto que no passado foi vítima de bullying? Com certeza, é algo para ser pensado e discutido.

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