quarta-feira, 6 de abril de 2011

O bom judeu

por Marcos Guterman
O Estado de S. Paulo

O famoso Relatório Goldstone é a pedra angular da propaganda “antissionista” segundo a qual Israel cometeu crimes de guerra ao atacar deliberadamente civis em Gaza na guerra de 2008. A cada tentativa de contextualizar o conflito, mostrando que guerras sempre têm dois lados, a militância “antissionista” brandia o documento como prova incontestável da maldade intrínseca de Israel. Três anos depois, porém, o autor do relatório, o juiz judeu sul-africano Richard Goldstone, escreveu um artigo em que reconhece que Israel, ao contrário do Hamas, não atacou civis de propósito. Ele admite que suas conclusões foram baseadas apenas em relatos, e não em provas. “Se eu soubesse na ocasião o que sei agora, o Relatório Goldstone teria sido um documento diferente”, disse o juiz, numa frase lapidar.

O governo de Israel mal conteve sua satisfação com o artigo, dizendo que a declaração de Goldstone teria de provocar a anulação do relatório. Embora tenha certa razão quanto a este ponto específico, Israel ainda deve ser cobrado sobre outros aspectos da guerra, sem falar da própria necessidade de sua deflagração. Mas é inegável que a admissão de Goldstone deveria mudar dramaticamente a visão cristalizada – e simplista – sobre o conflito.

Há quem diga que nada disso importa, porque, no final das contas, os civis foram mortos por causa da ação de Israel. Isso é verdade, mas é apenas meia verdade. Sabe-se que os civis morreram em larga medida porque foram usados como escudos pelo Hamas. Mas essa versão jamais aparecerá no discurso “antissionista” que é construído com distorções arquitetadas para deslegitimar o Estado de Israel – o Estado judeu.

Esse discurso provavelmente vai ignorar ou desqualificar a retificação feita pelo juiz Goldstone, em seu projeto de perpetuar a versão segundo a qual Israel cometeu crimes de guerra. Isso já começou: Ilan Pappe, o historiador israelense que os “antissionistas” adoram citar, declarou que Goldstone voltou atrás porque é judeu e quis ficar de bem com a comunidade judaica sul-africana e com Israel. Ou seja: antes, Goldstone era o judeu que ousara denunciar Israel; agora, ele é o judeu que cedeu à pressão de seus pares. Para onde quer que se olhe, sua condição judaica é reiterada, e não é preciso ser muito inteligente para saber por que razão isso ocorre.

O caso de Goldstone é exemplar do uso que se faz da “história” para sustentar teses ideológicas, como é o caso da campanha sistemática contra Israel. O próprio Pappe é um profissional desse tipo de cinismo. Como mostrou outro historiador israelense, Benny Morris, em recente artigo na revista New Republic, Pappe talvez seja “um dos mais desonestos historiadores do mundo”, porque distorce dados, inventa fatos e exagera números para “provar” que Israel é a encarnação do diabo. Pappe chega a escrever que Israel tentou matar palestinos com gás na guerra de 1948, numa alusão óbvia ao Holocausto. Como prova Morris, Pappe torturou documentos para que eles dissessem o que sua ideologia doentia queria expressar. Mesmo gente ligada a entidades pacifistas israelenses o consideram imoral. Nada disso importa. Pappe representa o padrão da abordagem da militância “antissionista” sobre o Oriente Médio, que tem ampla cobertura da imprensa e é tomado pelo valor de face por aqueles que acompanham o assunto de modo apenas superficial. Nesse padrão, todo palestino morto por Israel é classificado como “civil”, e o grupo terrorista Hamas é chamado de “partido político”.

É a mentira transformada em verdade, pela repetição e pela certeza ideológica ­– uma certeza tão grande que é improvável que a retificação de Goldstone tenha a mesma repercussão que teve o relatório que leva seu nome. É muito mais fácil acreditar numa farsa que faça “sentido” do que na realidade, em geral muito mais complexa e contraditória.

Segundo essa certeza ideológica, Israel jamais terá razão ao se defender, porque a razão sempre estará do lado daqueles que negam aos judeus o direito de ter seu Estado, na terra que lhes foi designada pela ONU. Para essa gente, judeu “bom” é aquele que caminhou mansamente para a câmara de gás.

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