sexta-feira, 1 de abril de 2011

A metáfora do coelho, da raposa, do lobo e do leão

“Não adianta lutarmos contra nossos adversários sozinhos, achando que com inominável esforço vamos conseguir alguma coisa, pois continua-remos fracassando a cada intento, derrubados no primeiro round da luta”

Há algum tempo eu participei de um congresso missionário, e foram dias abençoados que possibilitaram troca de experiências e ampliação de relacionamentos. Hospedamos num hotel maravilhoso, daqueles que fazem a diferença quando o casal decide deixar as crianças com os amigos para ter um tempo somente para si – leva apenas o “rapa de tacho” que, devido à pouca idade, não tem como ficar para trás.

Engraçado, mas aqueles dias foram como férias, embora tal sensação se restringisse somente ao quarto do hotel, pois as intensas atividades não permitiam muitas regalias. Voltando ao congresso, sempre há algo que se destaca para nós, missionários transculturais, nessas ocasiões. Mesmo acostumados com o linguajar missioneiro, o evento acabou se transformando num discurso pouco ortodoxo e metafórico, com destaque para um conto com nuances de fábula narrado por um dos palestrantes, e com fortes significantes. Segundo ele, essa historinha é comumente contada para os calouros nas universidades canadenses como uma espécie de estimulante para a jornada acadêmica que se inicia. Vou adaptá-la aqui, sem modificar a sua essência.

Um pequeno coelho passeava pelo jardim hortífero das redondezas de sua morada quando se deparou com uma raposa. No momento em que ela se preparava para degustar seu almoço, de súbito o coelhinho a interpelou: –– Você não pode me comer, dona raposa; afinal, eu ainda não terminei a minha tese! Com ar de surpresa, ela perguntou: –– Sobre o que você está escrevendo, ou melhor, qual a defesa da sua tese?! ­–– Estou dissertando sobre a superioridade dos coelhos em relação às raposas – respondeu o bichinho. –– Mas como?! Isso é impossível!!! O coelho, então, perguntou se ela gostaria de conhecer melhor o seu trabalho. E a raposa, cordialmente, aceitou o convite e adentrou à sua toca, de onde nunca mais saiu. Ninguém também jamais ouviu falar dela. A mesma cena se repetiu em outra feita, na mesma linha de abordagem e diálogo, apenas com a contextualização do título da tese e com o consequente desaparecimento de outro animal: o senhor lobo. Ninguém também nunca mais ouviu falar dele. E os boatos sobre o coelho corriam soltos, bem como de sua tese e do sumiço de raposas e lobos da vizinhança.

Passados muitos meses lá estava o pequeno coelho degustando sua cenoura, até que apareceu outro coelho, desinquieto e notadamente curioso. Depois de alguns minutos, ele puxou conversa com o companheiro que, imponente, disse: –– Dirija-se a mim como doutor coelho, pois eu já concluí a minha tese de doutorado! –– Então, o doutor poderia me mostrá-la! Pois não se fala de outra coisa! –– Claro que sim; é só me acompanhar – respondeu. O ambiente na toca do doutor coelho era típico de um estudante de doutorado: livros espalhados pelo chão e outros empilhadas pela sala, computador, provas de textos, inúmeros materiais de pesquisas, enfim... O convidado ficou deslumbrado, mas estranhou ao perceber ossos de raposas e lobos amontoados num canto. Não se conteve e perguntou o que era aquilo tudo. Pacientemente, o doutor coelho explicou: –– Não importa o título da tese que você pretende defender, a disposição ou facilidade de conteúdo, o material de pesquisa, a tecnologia disponível etc. O mais importante para que seja bem-sucedido numa tese de doutorado é o seu orientador, que faz valer todo o esforço para que alcance o objetivo final da dissertação. Enquanto explicava, o doutor coelho abriu uma cortina e mostrou-lhe um leão forte e vistoso descansando, muito bem alimentado.

Moral da história: muitas vezes canalizamos esforços desmedidos, e infrutíferos para alcançarmos certos objetivos, ou seja, nadamos muito e acabamos morrendo na praia! Não adianta lutarmos contra nossos adversários sozinhos, achando que com inominável esforço vamos conseguir alguma coisa, pois continuaremos fracassando a cada intento, derrubados no primeiro round da luta. Entretanto, se contarmos com um bom orientador – tipo o Leão da Tribo de Judá –, nosso doutorado da vida estará garantido. O que conta, afinal, é o orientador e não as técnicas de pesquisa e capacidades cognitivas. Se o doutor coelho compreendeu isso, vamos fazer valer também o nosso patamar de “coroa da criação” e tomar posse de nosso título!!!

Emerson Menegasse
É teólogo, filósofo e psicoanalista. Missionário no Nepal, onde coordena o ""Projeto Nepali"

Fonte: Revista Eclésia n. 147

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