quarta-feira, 13 de abril de 2011

Faça sua própria crítica de cinema

por Felipe Atxa - Mídia a Mais


Quer ser igual a um típico crítico de cinema da imprensa brasileira?

Por que depender da opinião dos outros para saber o que você deve achar do filme que acabou de ver? Fazer a crítica de um filme é mais fácil do que se imagina. Basta seguir algumas regrinhas básicas, e pronto! Você também pode ser um crítico de cinema e escrever no mesmo nível do que se publica diariamente nos jornais brasileiros.

REGRA 1

Nunca, jamais, em tempo algum, seja o primeiro a escrever sobre um filme que acabou de ver. Antes de emitir qualquer opinião a respeito, tenha certeza de que o que irá dizer é exatamente a mesma coisa que todos os outros críticos já escreveram antes de você.

REGRA 2

Antes de escrever sua crítica, leia pelo menos 5 outras críticas a respeito do filme. Se você não souber o que escrever, simplesmente selecione uma frase de cada uma das críticas já escritas e elabore seu texto a partir delas, variando apenas as preposições e advérbios.

REGRA 3

Não importa o gênero do filme, sua qualidade ou sua nacionalidade: você precisa, necessariamente, inserir em sua crítica algum tradicional jargão esquerdista. A lista de opções é infindável e facilmente encontrada em alguma crítica já publicada.

Exemplos:

- descubra no filme alguma manifestação oculta de conservadorismo, e condene-a;

- parabenize o diretor do filme por qualquer suspeita de que o enredo seja, na verdade, uma crítica ao capitalismo, ao ocidente, aos EUA, ao Vaticano, a Israel, à polícia, ao Exército, à moralidade burguesa, à Lei da Gravidade, tudo isso serve;

- não deixe passar batido se o filme mostrar qualquer coisa parecida com uma família, aproveitando a oportunidade para ridicularizar costumes humanos tradicionais (como casamentos entre "homem e mulher", monogamia, trabalho duro, relações comerciais, catolicismo ou outras aberrações do tipo);

- uma menção descabida a algum tema de interesse da esquerda é sempre melhor que sua ausência. Assim, escreva qualquer bobagem sobre a Guerra do Iraque, a Palestina, a bolha imobiliária, o regime militar, o neoliberalismo, a regulamentação da economia, a reforma da saúde do Obama...;

- no caso específico dos filmes brasileiros, sempre diga que o filme faz um "resgate de um período negro de nossa história", ainda que seja o milionésimo filme que você vê contando os mesmos episódios de sempre sobre os "Anos de Chumbo".

REGRA 4

Na dúvida, não escreva muito e apenas atribua ao filme estrelinhas e comentários sintéticos e enigmáticos - você nem precisa ter visto o filme para fazer isso. Para emitir avaliações resumidas, não se esqueça de algumas diretrizes básicas:

- um filme antigo é necessariamente melhor que um filme novo. Da mesma forma, uma refilmagem é sempre pior que um original, e uma adaptação de livro para cinema é sempre pior que o livro em si;

- um filme brasileiro é sempre melhor que um estrangeiro, na proporção de 2 para 1 contra os europeus e 50 para 1 contra os norte-americanos;

- um drama é sempre melhor que uma comédia;

- um filme em preto e branco é sempre melhor que um colorido;

- um filme que seja fracasso de bilheteria é sempre melhor que um filme que faça sucesso;

E assim sucessivamente.

REGRA 5

Se o filme tiver feito você rir, chorar ou se divertir, ele é necessariamente ruim. Não se esqueça disso quando for escrever.

REGRA 6

Se você não tiver compreendido absolutamente nada durante o filme, é uma prova irrefutável de que o que acabou de ver é uma obra-prima. Essa impressão será ainda mais reiterada se o filme tiver origem em algum país obscuro e distante. Então escreva que ele vale mais que "um ano de enlatados de Hollywood": é sempre bom irritar as pessoas comuns com opiniões estapafúrdias sobre filmes que ninguém entende.

REGRA 7

Se você perceber que o filme é uma porcaria, mas o diretor for seu amigo, descubra primeiro o que outros amigos do diretor já escreveram a respeito. Simplesmente copie o que eles escreveram. Se eles não escreveram nada, e ainda assim você precisa escrever, diga simplesmente que "é nos defeitos do filme (diálogos ridículos, luz horrível, montagem bizarra, trama patética) onde residem suas principais qualidades" - o que não faz sentido algum, mas todo mundo já leu alguma vez e certamente irá fingir que entendeu.

REGRA 8

Culpe as distribuidoras estrangeiras, as majors e Hollywood de forma geral por qualquer coisa que dê errado durante a sessão - até pela pipoca grudenta ou sem sal. Escreva que Hollywood é conservadora, ainda que 99% de quem trabalhe por lá seja militante esquerdista. Aliás, não importa muito: quase ninguém irá ler o que você escreveu.

REGRA 9

Sempre que for possível, culpe a violência nos filmes pela violência na vida real. Depois, diga que a violência na vida real é culpa das mazelas sociais, embora uma coisa contradiga a outra. Sobre o sexo, diga que há pouco nos filmes, porque a indústria é conservadora. Mas não fale que há pouco sexo "fora das telas", porque isso poderá parecer autocomiseração.

REGRA 10

Conclua sua crítica tendo em mente que só existem três mensagens possíveis em um “bom filme”:

- ou ele mostra que todo mundo é louco, exceto as pessoas que estão trancadas em hospícios ou instituições correcionais de modo geral;

- ou que ninguém é bom ou mau, todo mundo é igual, mas os bandidos, psicopatas e pervertidos em geral são mais "legais" que as pessoas comuns;

- ou que é sempre bom relativizar conceitos habituais de “bem” e “mal”, “certo” e “errado”, na verdade meras convenções burguesas que não podem se aplicar no mundo moderno ou a povos distantes, em geral vítimas históricas do colonialismo que impõe seus costumes (como a crítica de cinema) a outras culturas.

REGRA 11

Finalmente: se você acabou de pagar para assistir ao filme que viu, você é um idiota. Da próxima vez, descole algum ingresso de cortesia e pare de gastar dinheiro com bobagens.

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