domingo, 3 de abril de 2011

Espiritismo retorna com arsenal surrado

"As Mães de Chico Xavier" embarca em filão rentável e se apropria de dramaturgia de televisão para comover

Alexandre Agabitti Fernandez
O centenário de Chico Xavier foi comemorado no ano passado, com alguns filmes, mas o espiritismo continua rendendo nas telas em 2011.

"As Mães de Chico Xavier" é o primeiro filme espírita do ano, mas não será o único. O filão mostrou ser rentável, afinal, o espiritismo tem milhões de adeptos no Brasil e os temas ligados aos mistérios da morte
fascinam.

As mães do título são três.

Ruth (Via Negromonte) sofre com o filho dependente químico. Elisa (Vanessa Gerbelli) se dedica integralmente ao filho pequeno, pois o marido nunca está ao seu lado.

Diante de uma gravidez não desejada, a jovem professora Lara (Tainá Müller) vive uma profunda angústia, que aumenta com a morte do namorado.

Elas enfrentam perdas atrozes e buscam reconforto junto a Chico Xavier (Nelson Xavier, que encarna o médium no cinema pela segunda vez e vai se tornando um especialista no papel).

Isso acontece quando Chico está sendo objeto de uma reportagem de televisão conduzida por Karl (Caio Blat), um jornalista cético que ironiza o médium com tiradas engraçadas.

Como a grande maioria dos filmes espíritas, este também envereda pelo discurso doutrinário a partir das cartas, do moralismo, da condenação do aborto.

E mobiliza um arsenal de surradas convenções do melodrama para tentar comover o espectador e facilitar sua identificação com o que acontece na tela.

A trilha sonora se baseia em vocalises cheias de doçura, emulando um certo tipo de música "sacra" que acaba cansando pelas repetições.

TRIVIALIDADE
Muitas cenas insistem em mostrar o céu ou luzes fortes, que exasperam pela trivialidade. Também há abuso da câmera lenta. Os diálogos têm aquela serenidade típica dos convictos.

Com uma dramaturgia de TV mambembe, mobilizada para sensibilizar a partir de uma overdose de mau gosto, pouca coisa sobra. A inclusão de depoimentos reais -fio condutor do competente "As Cartas Psicografadas de Chico Xavier", de Cristiana Grumbach- contrasta com o resto e deixa o todo ainda mais frágil.

O melhor momento do filme é a conversa entre Karl e Mário (Herson Capri), o diretor da emissora de televisão, em que falam sobre a fidelidade aos fatos -com uma crítica às manipulações.

Mas a cena não é suficiente para tornar o filme interessante a quem desconfia de mensagens edificantes prontas para o consumo.

Fonte: Folha de S. Paulo

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