domingo, 24 de abril de 2011

Darwinismo virtual

Filme sobre Facebook expõe ressentimentos que originaram fetiche das redes sociais

"A Rede Social" é um filme mediano sobre um tema incontornável: o que faz com que pessoas inteligentes e cultivadas dediquem horas de seu dia a alimentar páginas da internet que expõem sua vida privada, mantendo relações com seres que nunca viram -ou que já veem mais do que o suficiente?

O filme de David Fincher conta a história da criação do Facebook pelo "nerd" americano Mark Zuckerberg e por seu colega brasileiro Eduardo Saverin. Melhor dizendo, conta como, após se apropriar (com aperfeiçoamentos, é verdade) de uma ideia de dois colegas de Harvard (os irmãos Winklevoss), Zuckerberg passou a perna no sócio, sendo processado por todos eles.

Fincher tenta emular, com cortes velozes e diálogos nervosos, a ansiedade e a cacofonia verbal típicas da comunicação virtual. E os flashbacks dos processos sofridos por Zuckerberg servem para dar tensão dramática a um enredo de enriquecimento que já se tornou banal na era do espetáculo.

Menos banal é o darwinismo embutido na trama: Zuckerberg pode ironizar com arrogância o processo jurídico porque sabe que, mesmo pagando indenizações milionárias, continuará bilionário.

Mas "A Rede Social" ajuda a compreender o dispositivo essencial do Facebook. Zuckerberg cria a "ferramenta" quando leva um fora da namorada e expõe suas mazelas num blog que alimenta a curiosidade alheia.

Descobre, assim, que ter acesso à vida de outrem sem os riscos da sedução (e sem os desconfortos do ressentimento) é a chave dos vínculos sociais numa era em que até a subjetividade, convertida em imagem, tornou-se objeto de fetiche.

FILME
A REDE SOCIAL **
DIREÇÃO: David Fincher
DISTRIBUIÇÃO: Sony (DVD, locação; blu-ray, R$ 59,90)

conexões

LIVROS

A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO ****
"O que aparece é bom, o que é bom aparece", sintetiza o filósofo francês nesse ensaio sobre o capitalismo.
AUTOR: Guy Debord
TRADUÇÃO: Estela dos Santos Abreu
EDITORA: Contraponto (1997, 240 págs., R$ 42)

VIDEOLOGIAS ****
A análise da incitação do gozo vicário pela mídia serve de preâmbulo aos laços sociais no mundo virtual.
AUTOR: Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl
EDITORA: Boitempo (2004, 254 págs., R$ 43)

Fonte: Revista São Paulo - Manuel da Costa Pinto

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