segunda-feira, 18 de abril de 2011

Confusão moral

Vivemos tempos confusos em termos morais. Veja a declaração abaixo, feita pelo sociólogo Antônio Rangel, da ONG Viva Rio, logo após o governo federal ter decidido antecipar para 6 de maio a campanha de desarmamento, antes prevista para junho.

"Estamos muito felizes - tristes pela tragédia -, mas felizes em poder colaborar com a campanha que vai ser melhor que a de 2004. Ninguém pode ser contra uma campanha voluntária. Estamos felizes com essa atitude e confiantes em uma campanha ainda maior. Estamos otimistas que esta tragédia não foi em vão. Ela vai nos ajudar a construir um país sem armas." Sim, Rangel se refere é ao massacre de Realengo, em que um maluco executou 12 crianças e feriu outras dez. Quase nenhum veículo da imprensa deu destaque à declaração. Sei de duas exceções: o Destak e o blog do jornalista Reinaldo Azevedo. Aqui mesmo na redação, a afirmação quase passa despercebida, não fosse uma leitora ter nos enviado um e-mail expressando o que chamou de asco. Houve quem considerou compreensível e aceitável o que disse Rangel.

Com o perdão da redundância, vale a pena acompanhar os passos da fala do sociólogo. Apesar de triste pelo massacre, ele está feliz, pois o ocorrido fará com que mais pessoas participem da campanha que ele defende. Rangel chega a dizer que "a tragédia não foi em vão". Ele está afirmando que a morte daquelas 12 crianças ajudará sua campanha, ajudará a "construir um país sem armas".

Percebeu? Rangel viu uma utilidade na tragédia. Como ele acredita que sua campanha é "do bem" e seus objetivos são bons, sente-se autorizado a se sentir "feliz". Eis aí uma confusão moral profunda. Não importa qual seja a posição que se tenha sobre o desarmamento diante do assassinato daqueles meninos e meninas, só há uma atitude possível, o luto; só um sentimento, a tristeza. Morte não tem lado bom. Morte não tem utilidade.

A fala de Rangel revela uma distorção moral que não é só dele. Na política, muita gente a utiliza. Na vida cotidiana, muita gente a considera aceitável. Essa visão tortuosa pode ser traduzida assim: em nome de um bem maior, definido segundo as minhas opiniões e crenças, posso considerar a vida daquelas crianças e a dor de suas famílias uma espécie de dano colateral. A leitora que escreveu ao Destak tem razão: é asqueroso.

Fonte: Destak Jornal

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