segunda-feira, 25 de abril de 2011

Bento XVI


Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S.Paulo

Acaba de ser publicado o último livro do papa Bento XVI, aliás, Joseph Ratzinger, intitulado Jesus de Nazaré, da Entrada em Jerusalém à Ressurreição. Sem dúvida, trata-se de uma grande obra de teologia, com extremo refinamento na análise filosófica, que o coloca na melhor tradição dos pensadores cristãos.

A sua obra, certamente de valor universal, tem também uma significação especial para o País, na medida em que se contrapõe a uma tendência ainda muito vigente na Igreja brasileira, a da Teologia da Libertação. Em perda de importância na Europa, continua atual na América Latina. É ela que dá forma às pastorais da Igreja, em particular à Comissão Pastoral da Terra (CPT), que criou o MST, e ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi), além de alimentar sua cruzada contra a modernização do Código Florestal. Esse setor da Igreja se alinha, e deles participa ativamente, aos ditos movimentos sociais - organizações revolucionárias que procuram abolir o capitalismo e instaurar uma sociedade socialista no País. Posicionam-se, explicitamente, contra a economia de mercado, o direito de propriedade e o Estado de Direito.

Do ponto de vista doutrinário, elevam Che Guevara, por exemplo, à posição de um mártir ou santo da Igreja, pois seria um revolucionário como Jesus teria sido. A noção de revolucionário serve para alinhá-los numa mesma posição teológico-política, como se fizessem parte da mesma tradição. Não hesitam, nessa perspectiva, em justificar a violência, como ocorre em invasões de propriedades, com armas brancas (facões e foices), cárcere privado, destruição de maquinário e morte de animais.

Nesse contexto, cabe particularmente ressaltar a seguinte passagem do livro do papa: "A voga das teologias da revolução que, segundo a interpretação de um Jesus zelote, tinha procurado legitimar a violência como meio para instaurar um mundo melhor - o Reino - acalmou-se (nos últimos anos). As consequências terríveis de uma violência motivada religiosamente estão, de maneira radical, diante de nossos olhos. A violência não instaura o reino de Deus, o reino da humanidade. É, ao contrário, o instrumento preferido pelo Anticristo - mesmo com uma motivação religiosa idealista. Ela não serve à humanidade, mas à inumanidade".

Note-se, preliminarmente, que "zelote", a pessoa que pratica o "zelo" pela "Lei", religiosamente entendida, é o que não recua diante do emprego da violência para fazer valer os seus valores. A vontade que usa desse zelo é aquela que usa a força para impor suas próprias concepções. A justificativa de um mundo melhor se torna apenas um instrumento de legitimação do uso da força e da violência, como se, assim, tudo estivesse permitido. As leis do Estado são simplesmente desconsideradas.

Observador atento do mundo de hoje, e não apenas do mundo judeu e helenístico de Jesus, Bento XVI condena de forma radical a violência política e religiosamente motivada. Já nos anos 70 do século passado havia criticado fortemente a Teologia da Libertação, mostrando a incompatibilidade radical entre marxismo e cristianismo.

É bem verdade que, no País, a onda de teologias revolucionárias ainda não se acalmou. A CPT e o Cimi têm justificado o uso da força enquanto meio de imposição de seus próprios valores, tomando esses meios como necessários para a transformação social e política. Livros, textos e material didático são produzidos, segundo essa concepção, para crianças e jovens, moldando a sua cabeça, onde a mensagem cristã é substituída pela revolucionária. Che Guevara, em textos para jovens, torna-se o herdeiro dessa linha de pensamento, bem ele que zombava, com zelo, da religião.

Evitando qualquer ambiguidade, Bento XVI chega a dizer que teologias revolucionárias são instrumentos do "Anticristo", o que é uma condenação inapelável do ponto de vista religioso. A sua atração, no entanto, não deixa de ser exercida, precisamente pelo fato de utilizar uma mensagem "idealista", como quando o discurso revolucionário aparece travestido de palavras como "solidariedade", "fraternidade", "luta contra o lucro", "combate ao egoísmo", e assim por diante.

Em termos políticos, trata-se de uma forma de capturar a opinião pública com palavras que procuram suscitar simpatia à sua causa, que seria, na verdade, em termos teológicos, uma perversão da verdadeira mensagem crística. Se estivéssemos apenas diante da violência explícita, ela seria mais facilmente condenável. Como aparece revestida de valores idealistas, o perigo é muito maior, pois a sua máscara pode não ser reconhecida como mera máscara.

O discurso moralmente superior, desta maneira utilizado politicamente, torna-se uma ferramenta da prática revolucionária. Bento XVI se posiciona contra essa concepção e essa prática de falsos humanistas, que se colocam, assim, fora do verdadeiro cristianismo. "No justo sofredor, a lembrança dos discípulos reconheceu Jesus: o zelo pela Casa de Deus conduziu-o à Paixão, à Cruz. Trata-se da virada fundamental que Jesus fez no tema do zelo. Ele transformou em zelo pela Cruz o "zelo" que queria servir a Deus pela violência. Ele estabeleceu, então, definitivamente o critério do verdadeiro zelo - o zelo do amor que se dá".

O tema da justiça é objeto de uma releitura feita a partir do sofrimento do corpo do Cristo, que, com seu exemplo, mostra um outro caminho possível para a humanidade, absolvendo, mesmo, os que o condenavam. É o amor ao outro que toma o lugar da invasão e destruição do outro.

Logo, o grande desafio que se coloca para a Igreja brasileira e, em particular, para suas pastorais, como a CPT e o Cimi, vinculados à CNBB, é se seguirão as orientações teológicas papais ou se continuarão fundamentadas na concepção de um Jesus supostamente revolucionário. As palavras de Bento XVI são claras: "Jesus não vem como destruidor; ele não vem com a espada do revolucionário".

Um comentário:

Anônimo disse...

Tenho respeito pela Igja católica, pela maioria dos Papas e suas obras, mas cá pra nós: Muito do que a igreja reafirma e que seus cléricos divulgam não é nada mais e nada menos do que o que já está dito nas Escrituras Sagradas.
Não é novidade.
Entendo que nesse aspecto as Igrejas Protestantes históricas estão mais a frente.