domingo, 10 de abril de 2011

Aposta do SBT não vale como ficção nem como documento

Enredo confunde dados históricos e direção remete a dramalhão mexicano

Folha de S.Paulo

Fernando de Barros e Silva

Na novela com intenções edificantes, adular a presidente parece mais importante que esclarecer as massas

Líder estudantil delicada e idealista, filha de pais comunistas, Maria Paixão ( Graziela Schmitt) é a heroína da trama. Seu par romântico é José Guerra ( Claudio Lins), jovem major fiel aos ideais democráticos, filho do general Lobo Guerra, da linha dura do Exército. “ Maria” e “ José”, “ Paixão” e “ Guerra” — isto é “ Amor e Revolução”, novela sobre a luta armada que estreou na terça, no SBT.


Os atores Cláudio Lins e Graziela Schmitt atuam na novela de Tiago Santiago

Mais do que maniqueísta, tudo é muito primário. O principal vilão, supostamente inspirado na figura de Sérgio Paranhos Fleury, o chefe torturador do Dops ( a polícia política da ditadura), se chama Delegado Aranha ( Jayme Periard). Seu assistente no porão da tortura é o inspetor Fritz ( Enando Tiago).

O assunto é sério, o SBT criou enorme expectativa em torno da novela, mas o resultado é uma piada.

As novelas da Globo, que nos servem de referência, também são ruins. Em “ Passione”, para citar um exemplo recente, havia uma mixórdia de gêneros — o pastelão farsesco, a trama policialesca, o drama social, o folhetim romântico— convivendo num mesmo enredo, obviamente desprovido de qualquer unidade dramatúrgica.

Esse Frankenstein estilístico é uma aspiração deliberada da novela global, uma fórmula com que a emissora busca atender às demandas de um público heterogêneo, que ela trata de massificar diante da tela.
“ Amor e Revolução” é ruim em outro sentido. O SBT quis fazer um banquete, mas não domina a receita do suflê. Tudo é tecnicamente precário, mas não exatamente “ pobre”. Temos uma superprodução “ trash” — ou, talvez, uma “ supertrash” produção.

A direção de atores nos remete àqueles dramalhões mexicanos. Os diálogos são postiços, ginasianos e involuntariamente cômicos — uma mistura de CPC ( os centros culturais do catecismo socialista dos anos 60) com“ A Praça É Nossa”.

Eis um exemplo: um casal de guerrilheiros veteranos está num sítio idílico, à beira da cachoeira. Jandira ( Lúcia Veríssimo) se vira para Batistelli ( Licurgo Spinola) e pergunta: “ Você me trouxe aqui para fazer amor ou fazer a revolução?”. E ele: “ Os dois. O amor cria tudo, a revolução muda tudo”. Os dois então se amam nas águas, na mesma toada da novela “ Pantanal”.

Não é só. Falta a “ Amor e Revolução” aquele mínimo de verossimilhança que a ficção com pretensões históricas deveria ter. A novela começa com uma chacina de estudantes que articulavam a guerrilha numa chácara. Os assassinos são Lobo, Aranha e sua turma. Mas tudo isso se passa antes do golpe de 31 de março de 1964.

Não havia, então, guerrilha no Brasil. A tortura contra adversários da ditadura só seria adotada pelo regime de modo sistemático depois do AI-5, em 1968. “Amor e Revolução” mistura tudo no liquidificador. Não presta como obra de ficção nem tem valia como documento histórico.

Restam, além das cenas abundantes de tortura, os depoimentos de personagens reais ao final de cada capítulo, como costuma fazer Manuel Carlos. É bom que o povo que gosta do programa do Ratinho conheça os horrores de que foi capaz a ditadura. Na novela com intenções edificantes do SBT, porém, adular a atual presidente parece mais importante do que esclarecer as massas.

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