terça-feira, 19 de abril de 2011

Almas sensíveis


A força mais enérgica não chega perto da energia com que alguns defendem suas fraquezas.” (Karl Kraus)

A Arezzo anunciou que vai retirar do mercado sua nova coleção Pelemania após protestos em redes sociais da internet. O motivo dos protestos seria o uso de peles verdadeiras de coelho e raposa na coleção, ainda que a grande parte seja de pele sintética. O “ecologicamente correto”, derivado do “politicamente correto”, chegou a patamares impressionantes mesmo. Era a gota d’água que eu precisava para escrever este desabafo.

O mundo parece habitado cada vez mais por “almas sensíveis”. O que seria isso? São pessoas covardes, quase sempre membros da “elite culpada”, normalmente desfrutando do conforto que somente o capitalismo ocidental pode oferecer, e pregando diversas bandeiras “nobres” para se sentir moralmente superiores. Vamos salvar as baleias! Vamos salvar as tartarugas! Vamos salvar os ratos! Vamos salvar os mosquitos da dengue! Ops, talvez eu tenha exagerado um pouco. Mas o fato é que essa gente não encontra limites para suas causas “politicamente corretas”.

Só mesmo alguém que vive no conforto das cidades modernas poderia se dar ao luxo de lutar pelas raposas. Quem vive feito nômade no frio, sem calefação alimentada pelo “maldito” petróleo, daria um bom trocado para ter um casaco de pele que o aquecesse no inverno. Sim, a revolução industrial, também tão condenada pela esquerda, avançou a ponto de permitir o uso de pele sintética. Não é fantástico? Claro que sim. Mas nem por isso vamos repudiar aqueles que não colocam a vida das raposas no topo de sua hierarquia de valores. E também não vamos condenar o “ouro negro” enquanto usufruímos de sua imensa utilidade. No meu dicionário, isso se chama hipocrisia. Viu, Al Gore?

A maioria dos “eco-chatos” não anda de bicicleta para cima e para baixo, nem vive sem ar condicionado. Seria pedir demais. Eles idolatram a vida “natural”, reverenciam a “mãe natureza”, mas bem de longe. Afinal, como são bons esses avanços artificiais que as empresas em busca de lucro criaram! Elogiar o Jardim do Éden sob o refresco de um aparelho moderno de ar condicionado é fácil; difícil é enfrentar a mosquitada no baita calor da selva, sem um mísero ventilador e tendo que se defender de tudo que é bicho selvagem! Algumas pessoas, ao que parece, levaram muito a sério a antropomorfização dos bichos, que vemos nos filmes da Disney e Dreamworks. Correm o risco de se apaixonar por uma ovelha, como no filme de Woody Allen (ao menos o nível da conversa seria adequado).

Voltando às raposas e aos coelhos (estes ao menos mais fofinhos que aquelas), o fato é que alguns os encaram como úteis aos seres humanos, enquanto outros chegam a preferi-los em detrimento dos seres humanos. Eis a grande diferença que vejo. A turma do PETA chega a declarar ódio ao homo sapiens (seria projeção daquilo que enxergam no espelho?), o grande “vírus” do planeta. A misantropia chega a patamares absurdos quando é preciso salvar um mico-leão. Construir uma hidrelétrica que vai produzir eletricidade para milhões de pessoas? Só se isso não for causar impacto na vida dos sapos, que têm “direito” de ficar em paz no rio! Cada um com suas prioridades, não é mesmo?

Coelho é comida em diversos lugares do mundo. Pergunta aos mais sensíveis: qual o destino da pele dos coelhos que morrem para virar ensopado? Ou agora comer coelho também não pode mais? Está bem, eu mesmo confesso me sentir mal, pois o bicho é mesmo fofinho. Mas galinha pode? Vaca pode? Qual o critério? A “fofura” do bicho? Pode até ser um critério; afinal, seria impensável para mim a idéia de comer um cachorro. Mas e a raposa nessa história? Quem protege a raposa pretende adotar alguma, como animal de estimação? Melhor tomar cuidado com a conhecida astúcia do bicho...

Sei que radicalizei no desabafo. Claro que há gente com preocupação legítima quando se trata dos animais. Meu ponto não é atacar essas pessoas, mas sim os excessos, a ditadura do “politicamente correto”, esta tendência moderna de ignorar as dificuldades na vida e pregar um mundo idílico do conforto de suas casas aquecidas e com farta comida. Não suporto tanta hipocrisia. E também não tenho muita paciência com a covardia que caracteriza a modernidade, onde pululam as “almas sensíveis” e pusilânimes, vítimas do “consenso” que precisam agradar a todos. Como alertou T.S. Eliot, não importa o que você pense, mas esteja certo ao menos que é aquilo que você pensa. O mundo atual está repleto de “Maria-vai-com-as-outras”.

Vejamos um último exemplo sintomático: o tal do “bullying”. Agora virou moda mesmo. Qualquer coisa é culpa do “bullying”. Matou crianças friamente com tiros na cabeça? Sofreu “bullying” na infância, claro! E isso explica quase tudo. Responsabilidade individual? Livre arbítrio? Capacidade de escolha entre estímulo e resposta? Nada disso existe. Se alguém te chamou de “gorducho” no segundo ano do ensino fundamental, você pode ser um potencial assassino mais tarde.

Não importa que “bullying” seja tão antigo quanto a humanidade (e aqui recomendo o excelente livro “Senhor das Moscas”, de William Golding, que retrata de forma dura e realista a natureza humana, contra a visão romântica de “bom selvagem” de Rousseau). Karl Kraus alertou: “Primeiro se proteger das crianças, depois protegê-las!” Não importa também que os “especialistas” digam que cerca de 80% das crianças sofrem “bullying”, ou seja, quase todos são alvos de chacota ou ataques de outras crianças. Aquilo que todos vivenciam não pode ser justificativa para atos isolados de uma minoria, pode? Mas a lógica também não importa. O importante é culpar o “bullying” por qualquer atrocidade cometida pelos marmanjos.

Vamos criar um mundo cheio de “mané”, onde vai parar na cadeia aquele que chamar o coleguinha de “zarolho”. Ninguém terá que aprender a se defender sozinho, a enfrentar os outros, e suportar os ataques e ofensas. Teremos o estado para tanto! É a ditadura dos medíocres, medrosos e covardes. Eles chegaram ao poder. E implantaram a ditadura do “politicamente correto”. Dureza...

por Rodrigo Constantino

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