segunda-feira, 7 de março de 2011

Um mundo melhor como?


Entrevista com Luiz Felipe Pondé

por Miriam Ribeiro – caderno Comportamento do JORNAL DA ORLA (Santos – SP)

Ele não teme ser tachado de pessimista, mal-humorado e não economiza palavras ao atacar a hipocrisia social camuflada no discurso politicamente correto, a mania de saúde total que tolhe prazeres da vida, o marketing do comportamento que vende o que consideram comportamentos desejáveis. O filósofo Luiz Felipe Pondé acaba de lançar o seu mais novo livro, “Contra um Mundo Melhor: Ensaios do Afeto”, pela Editora LeYa Brasil. É uma chacoalhada na apatia e neutralidade que hoje predomina na sociedade.

A coletânea reúne ensaios sobre temas variados, todos breves e de fácil leitura. Com um estilo polêmico e provocativo, Pondé considera o “direito à felicidade” uma grande falácia e é cético em relação a um mundo melhor: “Eu não acredito e não faço filosofia para melhorar o mundo. Não confio em quem quer melhorar o mundo. Acho um mundo de virtuosos (principalmente esses virtuosos modernos que acreditam em si mesmos) um inferno. O que nos humaniza é o fracasso”.

Filósofo e professor universitário, Luiz Felipe Pondé é colunista do jornal Folha de São Paulo. Nesta entrevista ao Jornal da Orla, ele não faz concessões. Você pode não concordar, mas vale a pena ler e refletir.

Jornal da Orla – O senhor se mostra cético em relação à humanidade. A falta de perspectivas positivas para a vida não seria um fator paralisante e desmotivante no momento presente?
PONDÉ – Não, a humanidade avança enormemente em períodos de crise como guerras (grandes invenções, grandes práticas de coragem moral) ou decadências (a Grécia teve seu apogeu filosófico na decadência de Atenas). A ideia de que a felicidade gera qualidade é coisa de políticade recursos humanos: muita quantidade, baica qualidade. O ceticismo sempre foi um dos maiores motores da humanidade, a modernidade é que tem esse viés infantil de querer só ouvir bobagens animadas, quase brega.

Jornal da Orla – O “marketing de comportamento” é um fenômeno recente, que surgiu na onda do politicamente correto, ou sempre existiu em outros formatos?
PONDÉ – Ele é descendente da velha e boa hipocrisia social como forma de convívio social; antes tinhamos puritanismos cristãos. Numa época como a nossa, na qual o marketing é a ciência que envolve outras ciências humanas na escravidão de vender tudo, começamos a vender comportamentos desejáveis dentro do puritanismo da saúde total (moral, sexual, afetiva …). Marketing de comportamento é a velha hipocrisia e o velho puritanismo alçado à condição de ciência do comportamento de sucesso.

Jornal da Orla – A leitura que o senhor faz da essência humana não pode ser entendida como negativismo?
PONDÉ – Pode, mas não me importo com isso. O número de pessoas que entendem o que falo é enorme, prova de que muita gente está de saco cheio do otimismo retardado do mundo de hoje em dia. Não sou negativista, sou “apaixonado” pela vida adulta, com seus impasses e dramas.

Jornal da Orla – Por que o senhor considera o otimismo um desvio de caráter?
PONDÉ – Veja o discurso dos políticos: são todos otimistas; grandes canalhas são sempre otimistas e simpáticos, caso contrário não dão o golpe que querem dar. Mas, hoje em dia, o otimismo é um modo de se vender no mundo. Repito o que falei sobre o marketing de comportamento.

Jornal da Orla – Os defensores do politicamente correto transformaram-se em nova “patrulha ideológica”?
PONDÉ – Óbvio que sim! São fascistas do governo, nas universidades, nas escolas; fariam sucesso nos regimes fascistas do século 20.

Jornal da Orla – O senhor definiu a liberdade como sinônimo de conflito, agonia, solidão. A vida real seria um poço sem fundo de sofrimentos? É na adversidade que encontramos a vontade de viver?
PONDÉ – Não. Existe pizza, existe amor, existe afeto, existe sexo, existem viagens; não é só sofrimento, mas prefiro fazer isso tudo como gente grande (adulto).

Jornal da Orla – A mania de qualidade de vida e saúde total nos bombardeia diariamente com “novas descobertas”, amplamente divulgadas pela mídia, principalmente a internet. O senhor acredita que esta tendência tem tempo curto ou veio para ficar?
PONDÉ – Acho que veio para ficar. A mania de saúde total é um dos traços do novo puritanismo e vai piorar. Logo logo esses governos moralistas e fascistas vão criar conceitos como “saúde social”, você vai ver…

Jornal da Orla – O senhor diz que a culpa é essencial para a humanização, mas essa culpa que atormenta e escraviza não seria um sentimento estimulado pela religião como forma de dominação?
PONDÉ – Acho os grandes sistemas religiosos grandes fontes filosóficas. Pessoalmente não pratico nenhuma religião, nem sinto necessidade disso, mas acho uma grande mentira dizer que a culpa foi inventada pela religião para manipular as pessoas. Quem nunca sente culpa é um monstro. A pergunta é: você já fez algo que fez mal a alguém? Se responder que não, é um mentiroso ou tem 1 ano de idade. Foi a religião que inventou a consciência moral? Não, mesmo os darwinistas antirreligiosos sabem disso .

CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS

HUMANIDADE
O que nos humaniza são os vícios, não as virtudes. Temo pessoas que não tem vícios. O novo hipócrita é magérrimo, “verde” e antitabagista… Pobre idiota é aquele que não vê que o destino é sempre contra nós, porque somos mortais.

APOSTA NA VIDA
Dostoiévski é sempre essencial. Para mim, uma de suas descobertas capitais é que, ao contrário do que diz nossa miserável ciência da autoestima, apenas quando encaramos o mal em nós é que recuperamos a vontade de viver. Só esmagando o orgulho com a humildade de quem se sabe insignificante é que vale a pena apostar no dia a dia.

DEMOCRACIA
Tocqueville, principal referência para entendermos a democracia, nos alertou para a natural vocação que esta tem para uma nova forma de tirania, a tirania da maioria. Antes de tudo, a democracia fez os “idiotas” (expressão rodriguiana) descobrirem que são maioria.

VALOR HUMANO
As pessoas só valem pelo que serven para as outras. Muitas pessoas estão prontas para se indignar quando dizemos que alguém “não serve” para nada. Mas, no seu dia a dia, é esse mesmo jargão que rege seus atos.

ESCOLHAS
A vida nos obriga a fazer escolhas terríveis, mas parece que agora decidimos que “tudo é bonitose dissermos que é bonito”. Como nos contos de fadas. Mentira: nossas escolhas são pautadas pelo úti, nossos atos são calculados, nossos afetos são estratégicos.

GANÂNCIA POR SAÚDE TOTAL
Há uma nova ganância no ar: a mania de qualidade de vida e saúde total. A saúde total busca uma vida pautada oels “resultados fisiológicos” e não pelos prazeres do mundo. A vida é desperdício, e ganancioso não gosta disso. Sinceramente, não estou convencido de que viver anos demais seja muito vantajoso. Sem “abusar” da comida, da bebida, do tabaco, do sexo, das horas maldormidas, não vale a pena viver muitos anos.

REVOLUÇÃO SEXUAL
É puro marketing de comportamento. Serve para produzir comportamentos superficiais que vendem coisas relacionadas ao sonho de consumo sexual. No íntimo, a maioria continua insegura, solitária e mal resolvida, só que agora sabe falar bonito sobre a tal liberdade sexual.

JOVENS
São conservadores com tudo o que dão valor e progressistas com tudo o que não dão valor, assim como todos os mortais .

DITADURA DOS OFENDIDOS
Não compactuo com a repressão que hoje tende a destruir o pensamento livre em nome dos ofendidos. Como todo brasileiro, sou uma mistura de europeu, índio e negro. Como todo mundo, tenho alguns preconceitos e quem diz que não os tem são os verdadeiros preconceituosos.

Fonte: Do pensamento no deserto

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