quinta-feira, 3 de março de 2011

Sarkozy pede que se assuma sem complexo a 'herança' cristã da França

De Nadege Puljak (AFP)

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, líder de uma república oficialmente secular, saudou a herança cristã na França nesta quinta-feira, num momento em que seu partido de centro-direita questiona o papel do Islã na sociedade.

O discurso de Sarkozy na cidade de peregrinação de Le Puy-en-Velay ocorre um mês antes de a França começar a aplicar uma proibição para o uso de véus islâmicos por muçulmanos em lugares públicos e em meio a controvérsias sobre identidade religiosa.

Opositores do presidente e de seu partido majoritário, o UMP, de centro-direita, criticaram o que chamaram de "preconceito perigoso" e a ameaça à estrita identidade secular francesa, pedindo um debate nacional sobre religião.

Mas Sarkozy, que deve encarar um difícil desafio nas eleições presidenciais do ano que vem frente a uma ala de extrema-direita fortalecida, recorreu a eleitores católicos como uma forma de irritar os críticos de esquerda.

"O cristianismo nos deixou uma herança magnífica de civilização. Como presidente, eu posso dizer isso", afirmou em uma cidade que por séculos foi caminho para peregrinos em direção a Santiago de Compostela.

"Essa herança vem com obrigações, essa herança é um privilégio, mas nos apresenta acima de tudo um dever: nos obriga a passá-la às futuras gerações, e nós deveríamos fazê-lo sem dúvidas ou vergonha", disse.

As novas declarações de Sarkozy sobre o cristianismo ocorrem enquanto o líder do partido UMP tenta iniciar um debate nacional sobre a prática religiosa, particularmente em meio à população muçulmana, que soma mais de 5 milhões de pessoas.

O prefeito socialista de Paris, Bertrand Delanoe, acusou a direita de "abrir uma caixa de Pandora" ao levantar a questão do Islã e argumentou que Sarkozy estava brincando com extremistas.

Insistindo que os eleitores estão muito mais preocupados com o aumento do desemprego e dos preços, ele acusou o presidente de manipular o público.

"Ele está tentando dar a impressão de que a comunidade muçulmana ainda representa um problema, quando os fatos mostram o contrário", completou.

O debate do ano passado sobre identidade nacional levantou tensões políticas quentes, enquanto a França foi amplamente criticada, particularmente em relação às expulsões de ciganos romenos.

Opositores acusam o presidente, que está tendo dificuldades nas urnas, de criar divisões raciais em uma tentativa de ganhar votos da direitista Frente Nacional, agora liderada por Marine, filha do fundador Jean-Marie Le Pen.

Sarkozy aparenta estar retornando à briga. No mês passado, ele declarou que o multiculturalismo foi um "fracasso" e disse esperar ver o desenvolvimento de um "Islã francês, não um Islã na França".

Agora, o secretário-geral da UMP, Jean-François Cope, convocou uma reunião para 5 de abril para discutir práticas religiosas "particularmente do setor muçulmano".

Em resposta, um grupo de imãs e de líderes comunitários de diversas regiões muçulmanas divulgaram um comunicado no qual criticavam o fato de o debate ter sido instaurado para classificar o Islã como uma ameaça maior ao secularismo que outras religiões.

Alertando que isso poderia reforçar preconceitos, insistiram que sua comunidade sempre seguiu as leis francesas.

"Pedimos aos políticos que respeitem o princípio secular e desistam de dizer aos muçulmanos como eles precisam entender a religião deles", afirmou o grupo.

Em 11 de abril, entrará em vigor uma lei que proíbe o uso de véus islâmicos como o niqab ou a burca em público, forçando uma minoria de mulheres muçulmanas que usam o véu a removê-los sob a pena de serem presas ou terem de pagar multas.

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