domingo, 13 de março de 2011

Doente de mentira

Vagando de hospital em hospital, pacientes com síndrome de Münchhausen inventam doenças para receber cuidados , mas fogem quando descobertos, impedindo tratamento psiquiátrico

Guilherme Genestreti
A paciente chega à emergência psiquiátrica dizendo ter pensamentos suicidas. Seu histórico clínico mostra que, nos últimos três anos, passou por outros 20 hospitais, com queixas que iam de dores abdominais a embolia.

O seu problema real é síndrome de Münchhausen, transtorno mental que leva a pessoa a criar sintomas inexistentes para obter atenção.

São desconhecidas as razões que levam o portador do transtorno a procurar incessante atendimento hospitalar, muitas vezes se submetendo a procedimentos invasivos como laparoscopias e endoscopias. Há hipóteses.

"São pessoas carentes, que precisam de cuidados e encontram no médico a obrigação de cuidar", diz a psiquiatra Ana Gabriela Hounie, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

"Não há um objetivo muito claro e não se sabe qual o ganho, mas a pessoa sente prazer colocando-se na condição de doente e se achando especial por ter uma equipe dedicada a ela", diz Hounie.
"Imagine alguém que se coloca em situações de risco, fazendo diversas cirurgias. É uma forma patológica de conseguir atenção."

EM FUGA
O psiquiatra Wagner Gattaz, presidente do Instituto de Psiquiatria do HC, foi quem tratou a paciente descrita no início deste texto.

Mas o caso é exceção à regra, diz ele, porque a a maioria desses doentes de mentira nem chega ao psiquiatra. "Quem os recebe, quase sempre, é o clínico", diz Gattaz. "Se a pessoa é descoberta, foge antes de ser encaminhada a tratamento psiquiátrico."

Gattaz distribuiu cópias de seu estudo com essa paciente para alertar profissionais do hospital sobre o transtorno. "Muitos desses pacientes seguem não sendo diagnosticados", afirma ele.

Para Gattaz, o maior problema é o médico tratar esse tipo de paciente como um mero simulador, e não como o portador de um transtorno.

"Quando detectam que a doença é falsa, muitos médicos começam a considerar o paciente como um mentiroso. Isso é ruim, porque a pessoa foge do hospital e não trata o problema", afirma.

Diante da suspeita de doença fictícia, o médico deve atentar para o histórico de internações do paciente e outros sinais característicos, sugere Gattaz.

É o caso do chamado "abdome em grelha", ventre marcado por cicatrizes de várias cirurgias e da demonstração de conhecimentos sobre medicina.

"Eles fazem as queixas sem emoção. Descrevem dores abdominais como se fossem rotina. Mas quando alguém sente mesmo a dor, ela está estampada no rosto."

POR PROCURAÇÃO
Uma versão particular da síndrome preocupa os pediatras. É a Münchhausen "by proxy" ou "por procuração".

Nela, um dos pais, em geral a mãe, atribui ao filho a doença fictícia e pode até chegar a provocar os sinais.
"Ela extrapola no filho aqueles mesmos motivos psicológicos que usaria nela mesma, para chamar a atenção
à sua condição de protetora", explica Gattaz.

Essa situação pode chegar a maus-tratos, segundo Rachel Niskier Sanchez, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria. "É importante o médico estar atento."

Segundo ela, o ideal é que, diante da suspeita, o médico peça detalhes do caso para detectar contradições.
"Se o filho não é tão pequeno, a equipe médica pode pedir que a mãe saia para conversar a sós com a criança."

Barão contador de histórias dá nome à doença

Em 1951, o médico inglês Richard Asher relatou pela primeira vez a síndrome no "The Lancet", batizando-a com o nome de um famoso mentiroso.

O Barão de Münchhausen (1720-1797) foi um nobre alemão que se tornou célebre por contar histórias exageradas sobre suas aventuras como militar.

Em 1785, o alemão Rudolf Erich Raspe acrescentou ainda mais ficção aos relatos, no livro "As Aventuras do Barão de Munchausen".

Internet é o ambiente perfeito para invenções de portadores do distúrbio

A internet favorece os portadores da síndrome de Münchhausen, segundo Marc Feldman, professor de psiquiatria na Universidade do Alabama e responsável por cunhar o termo "Münchausen pela internet".

"Com a rede é possível atingir até milhares de pessoas, enquanto que na forma tradicional da síndrome são poucos os ludibriados", disse à Folha, por e-mail.

Feldman, que escreveu o livro sobre o transtorno "Playing Sick" (não traduzido), afirma que o anonimato na rede seduz o paciente.

"Se a mentira for descoberta, a pessoa pode rapidamente se "deslogar" e continuar em outra comunidade virtual, com uma nova história sobre alguma doença."

O psiquiatra afirma que os portadores têm à disposição diversos grupos online como fóruns de saúde e redes sociais nos quais encontram o tempo e a atenção desejados.

Para o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do programa de dependentes de internet do Instituto de Psiquiatria do HC, a rede social Orkut pode ser um terreno fértil para essas pessoas.

"Dá para garantir o anonimato e exagerar os sintomas, despertando a piedade."

A internet ajuda o portador a mentir também fora do ambiente virtual.

"Com a internet fica fácil descobrir sintomas e enganar o médico", diz a psiquiatra Ana Gabriela Hounie. (GG)

Fonte: Folha de S. Paulo

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