sábado, 26 de março de 2011

A arrogância de quem não acredita

Ivan Maciel de Andrade - advogado

Sempre houve afirmações de ateísmo por parte de filósofos e cientistas. E mesmo de pessoas com projeção intelectual ou que pretendem adquiri-la através de atitudes irreverentes em que se propõem a demonstrar pretensa superioridade cultural. A frase de Voltaire – “Écrasez l’infame”, esmagai o infame – serve de lema para essa categoria de pessoas. Embora Voltaire fosse deísta e quisesse na verdade investir contra a Igreja Católica e os dogmas religiosos. Mas para muitos a declaração de que são materialistas, agnósticos, descrentes da existência de qualquer dimensão espiritual parece ser uma forma de autoafirmação, de se colocar acima da grande massa que pratica –formalmente – alguma crença religiosa. Esses incrédulos desprezam até mesmo quem alimenta uma fé cheia de dúvidas, mas que, em meio a questionamentos, tem confiança em um Poder que comanda os destinos humanos e a que se pode recorrer nos momentos de aflição, de dor, de desespero.

Compreendo as posições dos que se dizem ardorosamente materialistas, que negam tudo que o esteja fora do alcance de uma lógica autossuficiente ou da lúcida e pretensiosa racionalidade humana. Ninguém, afinal de contas, é obrigado a ter fé. Ao contrário, essa é uma decisão muito pessoal, subjetiva, íntima. Diria até mesmo que não é lícito condenar, como muitas vezes se faz, as ideias e posições de quem se coloca contra os princípios de alguma ou de todas as religiões. Embora se deva admitir que às vezes a falta de fé decorre paradoxalmente de uma carência: a pessoa não encontra respostas que satisfaçam e superem incertezas, inquietações, angústias e exigências espirituais.

De qualquer forma, defendo que se respeite incondicionalmente o direito de ateus, materialistas, agnósticos dizerem o que pensam e de agirem em total sintonia com as suas convicções. Qualquer tentativa de restringir o direito à antirreligiosidade é preconceituosa e inaceitável. Uma coisa, no entanto, me surpreende. É a arrogância, o tom de escárnio, de deboche mesmo, assumido por certos colaboradores (professores universitários, escritores etc.) no caderno “Ilustrada” da Folha de S.Paulo, em relação aos que têm fé. Eles de referem aos que acreditam em Deus como se fossem desprezíveis mentecaptos, escória da inteligência, ridículos sobreviventes de épocas pré-históricas, tão desinformados sobre as modernas descobertas científicas que dá nojo considerá-los como pertencentes ao estágio atual da civilização humana. Recentemente, a propósito do apocalipse japonês, um desses colaboradores – um português, reconheça-se, dotado de ironia e erudição – afirmou que os monoteístas derrotados pelas ciências e desacreditados na sua fé agora estão se transformando em panteístas e atribuindo à natureza “intenções vingativas” contra os seres humanos, em contrapartida a malfeitorias e explorações desastrosas. Na verdade, para o professoral e dogmático jornalista português, tudo não passa de episódios circunstanciais, ditados pelo acaso.

Acho que esse pessoal que se vangloria de viver liberto da fé religiosa deveria ter alguma humildade, mesmo que arrancada a duras penas de suas sábias e científicas entranhas, para reconhecer que as questões metafísicas, a principal delas versando sobre a existência de Deus, admitem divergências baseadas em argumentos que não podem ser ridicularizados ou tidos como manifestação de mero retardamento mental. Por que tanta autoconfiança e tanto desapreço às atitudes e convicções religiosas? Afinal, alguns grandes cientistas (de ciências de ponta), grandes pensadores (de vários países), grandes representantes da inteligência humana continuam acreditando em Deus e nos princípios que se fundamentam na Bíblia e em outros livros sagrados – que são sagrados para os fieis que pautam suas vidas pelos ensinamentos que neles se encontram. Parece até que esse menosprezo às religiões traduz a tentativa de criação de uma nova classe de intelectuais: uma superelite que se situa acima das preocupações “vulgares” com os valores espirituais, que serviriam apenas para alimentar superstições e crendices de pessoas intelectual e culturalmente inferiores...

Fonte: Tribuna do Norte

Nenhum comentário: