domingo, 6 de fevereiro de 2011

Vou de ônibus

Praticidade e ideologia levam paulistano a trocar carro por coletivo; confira prós e contras de encarar o busão

Pela porta da frente

Corredores exclusivos de ônibus e bilhete único favorecem adesão de paulistanos ao transporte coletivo em troca das vias abarrotadas de carros; motivo de protestos, passagem é a mais cara do país

TETÉ MARTINHO / FOTO JORDI BURCH

Malu Moraes mora em um apartamento bacana nos Jardins, passa os fins de semana em seu sítio, em São Francisco Xavier, e, em abril, comemora o 60º aniversário em Milão, onde viveu sete anos. Para manter seu padrão de vida, cortou hábitos que considera desnecessários: restaurantes caros, roupas da estação -e carro.

Vai de ônibus ao Brás, à 25 de Março, ao ABC -cria brindes para empresas, em parceria com designers-, à Bienal, à noite, para alguma abertura de exposição. "Vou arrumadinha, de salto."

"O corredor é mais rápido do que o carro, os ônibus vão vazios no contrafluxo e são bem mais civilizados do que já foram", explica. "Além disso, sou muito curiosa em relação à cidade. Se vejo algo que me interessa, desço do ônibus, vou lá olhar e depois pego outro. Se o trânsito trava, vou a pé, entro na loja de vinho para ver as ofertas. Quando me perguntam por que não engordo, digo: não tenho carro."

Motivos parecidos -economia, autonomia para mudar de estratégia quando há congestionamento, vontade de fazer dos deslocamentos algo menos penoso e improdutivo- têm levado mais paulistanos com profissões liberais e criativas a recorrer ao ônibus.

Com horários flexíveis, que permitem evitar os picos, e rotas que atravessam basicamente as zonas central, oeste e sul, eles estão descobrindo um sistema mais rápido e cômodo do que supunham, para além de perrengues clássicos como a falta de informação e a freada maldosa.

"Tinha uma impressão ruim de ônibus. Achava que era um negócio desagradável, apertado", conta o empresário Felippe Barretto, 33. Mesmo assim, há três anos, ele vendeu o carro e começou a fazer de ônibus o trajeto entre sua casa, na Bela Vista, e o salão de beleza Bob, que abriu há pouco em Pinheiros. Vai pulando de ônibus em ônibus, alternando rotas e trechos a pé, e não quer outra vida.

"A maior vantagem é não dirigir", diz. "O trânsito de SP é cruel, tira o humor, estraga o dia. Agora passo mais calor, mas não chego irado ao trabalho."

Quem está aderindo agora ao ônibus deu sorte. As melhoras dos últimos anos incluem carros maiores e mais novos, o bilhete único, GPSs que ajudam a verificar denúncias de má condução e um serviço de reclamações que, pasmem, dá retorno. "Uma vez liguei para falar de uma linha esquisita, com motoristas sem crachá. Era clandestina e foi tirada da rua", conta Malu. A principal queixa dos paulistanos, no entanto, continua sendo a demora para embarcar, responsável por quase 30% das reclamações.

Para o arquiteto Paulo de Camargo, 30, de Araçatuba (SP), a mão na roda foi o buscador de itinerários da SPTrans, lançado na época em que se mudou para São Paulo, há cinco anos. Depois de dois meses, ele desistiu do carro e aderiu ao ônibus, que usa até hoje para tudo, menos para voltar da balada. "Quando você não conhece uma cidade, é mais fácil andar de ônibus. E você vai despreocupado, presta atenção, vê um prédio interessante, um ipê que floriu fora de época... Tem tudo a ver com minha profissão."

Tirando a chuva torrencial que tomou na cabeça um dia desses e alguns congestionamentos monstros, quando aproveita para "pôr a leitura em dia", sua experiência mais bizarra envolvendo ônibus foi a bronca que levou de um ex-chefe por ter ido de coletivo visitar uma obra do escritório fino onde trabalhava.

"'Arquiteto do escritório X não pode andar de ônibus', ele me disse. Andar de ônibus é coisa de pobre. E se o cliente descobre?"

Precisa melhorar
"A moça da academia onde faço natação acha estranho quando me vê no ônibus depois da aula. De fato, sou o único dos meus amigos que não anda de carro", conta o empresário e designer de iluminação Ricardo Heder, 48. "Para mim, estranho é um arquiteto, um urbanista ou um sociólogo que nunca andou de ônibus, não conhecer a cidade dessa perspectiva."

O hábito do ônibus, herdado do pai, pesou até na escolha da casa onde mora, próxima do corredor da Francisco Morato. "O ônibus é o tempo que tenho para pensar", diz. Um carro basta para ele e a mulher, a fotógrafa e artista plástica Renata Ursaia, 37, que também pratica "um mix de ônibus, metrô, a pé e de bike" para se deslocar. "Acho carro chato. Gosto de ver as pessoas, o que está acontecendo. É importante para o trabalho, para a vida", explica.

"Mas não vou dizer que ônibus é maravilhoso. Não é." Sinalização falha -Ricardo comprou um monóculo para tentar enxergar o itinerário do ônibus a tempo de conseguir pará-lo no ponto -e coletivos que passam batidos, lotados e às duplas estão entre as queixas do casal.

"Às vezes, você tem que esperar o cobrador acabar de falar ao celular para pagar", acrescenta o estilista Carlos Christofani, 49, que só anda de táxi, metrô, ônibus ou a pé. "Mas o ônibus anda. E andar de ônibus é menos chato do que ficar duas horas parado no trânsito sem poder fazer nada."

Além de gostar da "sensação de estar viajando na própria cidade" do pedestre/comutante, Carlos fez uma conta e concluiu que, mesmo se andasse só de táxi, gastaria menos do que para manter um carro.

Um paulistano que mora na região da Pompeia (zona oeste), perto do shopping Bourbon, e trabalha na Berrini (zona sul) teria, por exemplo, uma economia de 63% nas despesas mensais caso trocasse o carro pelo ônibus.

O transporte coletivo parece, para Carlos, "caminho sem volta" para uma cidade com quase 7 milhões de veículos. "Tenho crédito pré-aprovado de R$ 110 mil para comprar carro numa conta que se tiver R$ 100 de saldo é muito", afirma.

O sistema de transporte urbano, é claro, está cheio de problemas. A sãopaulo comparou o que anda bem e o que precisa melhorar (quadro à esq.). Percorreu cerca de 40 km do corredor Rebouças. Buracos, filas de ônibus e até alagamentos estão entre os problemas.

Prêmio estímulo
Todos os dias, há quatro anos, Matthew Shirts, 52, editor da revista "National Geographic", vai e volta de ônibus do trabalho. Não porque acha o transporte urbano daqui bom, mas porque não gosta de estacionar nem de não poder fazer outra coisa enquanto se locomove. Foi sentado no busão, perto da porta -uma escolha estratégica-, que leu os copiosos originais de "Pornopopeia", do amigo Reinaldo Moraes, antes de todo o mundo.

"O ônibus é o primo pobre do transporte urbano. O passageiro é desrespeitado. São poucos e lotados, não têm amortecedor, não têm câmbio automático. É como diz o Jaime Lerner: 'O problema é que ninguém importante anda de ônibus'", diz o jornalista americano, que vive no Brasil desde 1984. Sem falar na tarifa, R$ 3, a mais cara do país. "O governo brasileiro devia premiar quem usa ônibus, assim como na Alemanha as pessoas ganham dinheiro para ter filhos."

"Carro não compete com corredor, o estacionamento é caro e é impossível dirigir com segurança falando ao celular e baixando e-mail. Ir de transporte público é mais negócio", acredita o engenheiro florestal e consultor Tasso Azevedo, 38. Sua política é ir de ônibus até o mais perto possível do destino e, então, pegar um táxi, tudo sem parar de trabalhar no iPad. Acha que mais gente deveria fazer isso.

"Há várias São Paulo se movimentando em horários distintos, e diria que tem um espaço grande para uso de ônibus, no centro expandido, fora dos horários de pico", confirma Celso Alexandre Lopes, superintendente da SPTrans.

"Como o sistema é dimensionado para a periferia, conforme os ônibus deixam o bairro e se aproximam do centro, a lotação diminui."

Para Tasso Azevedo, o profissional liberal é justamente o cara que poderia usar o ônibus. "Mas, em geral, eles nem sabem que é confortável. Acham que é o que era há 20 anos", diz.

"O ônibus está lá, o corredor está lá. Em termos de impacto ambiental, usar transporte coletivo não se compara a tirar o carro da garagem."


Fonte: Revista sãopaulo

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