sábado, 19 de fevereiro de 2011

A música em todos os ouvidos



Livro de Tim Blanning, professor da Universidade de Cambridge, defende a ideia de que, sobretudo a partir de Beethoven, os compositores ascenderam como nunca e mudaram o status social de sua arte

João Marcos Coelho - O Estado de S.Paulo

A tese é atraente, embora óbvia se não se coloca nenhuma qualificação após o substantivo: em quatro séculos, a música ultrapassou as demais artes e hoje curte incontestável pole-position. Está presente em nosso dia a dia, do computador ao carro, do supermercado às salas de concerto, baladas, estádios em megashows pop. É a mais invasiva das artes. Algo a comemorar se suspendermos o juízo crítico. Ou a deplorar, se olharmos para seus conteúdos. Nessa areia movediça Tim Blanning recusa-se a pôr os pés.

O Triunfo da Música adota o tom triunfalista, de Monteverdi ao hip-hop. Estrutura-se em cinco capítulos ou eixos básicos. Cada um retoma o percurso de um ponto de vista diferente. Prestígio fala do lugar dos músicos na sociedade, desde sua condição de servos, como Haydn no século 18, a superstars pop de hoje como Mick Jagger. Propósito examina historicamente a função da música na vida das pessoas. Na Itália lírica do século 19, diz Blanning, um soldado teve o braço amputado e usou como "anestésico auditivo" uma ária de Verdi que berrou durante a cirurgia. Lugares e Espaços retraçam a ampliação dos locais onde se faz música, do nascimento da ópera e a fixação da sala de concertos na passagem dos séculos 18/19 até os megashows atuais. Tecnologia esquadrinha os avanços técnicos nos instrumentos e a revolução da música gravada, dos cilindros de Thomas Edison ao iPod e ao download. E em Libertação, apoiado no conceito de "esfera pública" do filósofo alemão frankfurtiano Jürgen Habermas, alcança seu melhor momento ao narrar a criação e fortalecimento do espaço público que impulsionou o nacionalismo na Europa do século 19.

Apaixonado por música, Blanning, historiador inglês de Cambridge especializado no século 18 europeu, sempre contrabandeou a música para seus livros. Em The Culture of Power and the Power of Culture, de 2003, cobrindo o período 1660-1789, e em The Romantic Revolution, lançado mês passado na Inglaterra, a música ocupa lugar de destaque. Nos últimos anos fez das conversas pré-concerto com o público - hoje mania no mundo da música de concerto anglófona - fonte extra de prazer pessoal. Foi de uma afirmação recorrente dessas plateias que surgiu este livro saboroso, de leitura indicada ao engessado público de música de concerto, habituado a enxergar a história da música em saltos, numa sucessão de gênios que pipocaram aqui e ali, em todo o planeta. Todos filhos de chocadeira, nasceram, viveram e criaram no vazio absoluto. Blanning prova o contrário com leveza, uma montanha de informações interessantes e irresistível senso de humor. Ao falar da erupção do nacionalismo, pinça uma frase hilária de Carl Maria Von Weber, um dos construtores do germanismo em música: "Ele imaginou os instrumentos da orquestra reclamando da perspectiva de tocarem outra sinfonia de Beethoven, o que os deixava exaustos, implorando uma ópera italiana em seu lugar, durante a qual podiam dar um cochilo ocasional". Além dessa, há centenas de outras sacadas reveladoras.

Os séculos 18 e 19 são sua especialidade - ainda bem que o livro se ocupa majoritariamente da música nesse período. O ponto alto é o suculento capítulo Libertação, que mostra como a música foi um dos motores dos sentimentos políticos nacionalistas na fragmentada Europa do século 19.

Blanning erra quando muda o registro conceitual ao lidar com a música a partir da segunda metade do século 19 - justamente o período em que se iniciou a massificação do consumo e se bifurcou a criação musical. Para ficar do lado da música popular, a detentora do triunfo do título, ele se permite uma licença teórica discutível: de repente, passa a enxergar só nas músicas populares razão de ser no mundo de hoje. "Muitos acreditam que a história da música nos últimos 100 anos esteve longe de um progresso triunfal. Eles afirmam que a música da tradição clássica desapareceu num mundo sônico estratosférico de "plins" e "plons" acessível só aos demais músicos, enquanto a música popular mergulhou cada vez mais nos subterrâneos da vulgaridade ofensiva."

O público, portanto, joga ambas no inferno, mas Blanning esquece a qualidade e recorre equivocadamente ao critério da durabilidade coma chancela de triunfo da música popular. "Enquanto os critérios estéticos são passageiros, a capacidade de agradar a uma geração após a outra se confirma pela objetividade." O argumento aplica-se aos Beatles, mas cairia melhor em nomes como Bach, Vivaldi, Mozart e Beethoven, há bons séculos em cartaz. Na conclusão, cita pesquisa com 600 mil pessoas em 2000, que elegeu John Lennon "o músico mais influente de todos os tempos", à frente de Bach (7.º lugar) e Mozart (10.º). "Este é um livro sobre o triunfo da música, não sobre o triunfo dos músicos (e certamente não músicos com atuação na tradição clássica)". Uma afirmação vale só para as partes finais dos capítulos.

Blanning é apaixonado pelos clássicos, mas fica inseguro ao lidar com o universo popular. Enfatiza a participação do pianista Wynton Kelly em A Love Supreme, a suíte gravada pelo saxofonista John Coltrane nos anos 60 - mas foi McCoy Tyner o parceiro-chave nessa obra-prima do jazz. Erro chato.

Por isso, parece a contragosto apelar ao critério quantitativo para determinar o triunfo no reino da música, pois para isso tem de jogar na lata do lixo a maior parte da produção dos grandes do passado. "Em termos quantitativos, porém, o futuro residia na música popular", escreve a propósito da explosão da música gravada nos anos 30/50. E clama, depois de citar uma frase do pesquisador inglês Michael Chanan, um dos mais inteligentes historiadores sociais da música: "Quando é que os valores musicais não foram relativos?, pode-se perguntar. Grande parte da música de vanguarda sobre a qual Chanan escreve com tanto entusiasmo pode também ser classificada como "poluição sonora", embora não a obra 4"33"" de John Cage, que consiste em 4 minutos e 33 segundos de silêncio". É um dos raros momentos em que parte para a gozação explícita gratuita e de mau gosto. Prega a etiqueta cômoda do elitismo para se safar da real aporia da questão: "Para certo tipo de intelectual que acha que sabe do que o povo deveria gostar, esse processo de expansão é uma experiência deprimente".

A discussão seria longa e não cabe aqui. Tais destemperos não invalidam este livro formidável pelo volume de informações e a inteligência e leveza com que trata da música como fenômeno antes de tudo social. No oceano de frases bem sacadas por Blanning, fico com uma de Felix McGlennon, irlandês que fez sucesso como autor de cançonetas do music hall britânico da passagem dos séculos 19/20: "Existe, vou lhe contar, uma grande arte em tornar o lixo aceitável". Até agora, juro, não descobri que arte é essa.

João Marcos Coelho é jornalista e crítico musical

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