segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Manifestações unem cristãos e muçulmanos

Lourival Sant'Anna - O Estado de S.Paulo

Ao entrar na Praça Tahrir, Hany Mohamed junta-se a um grupo de homens ajoelhados na calçada, para a quarta oração do dia. Adel Wagdi espera a alguns metros. "Sou cristão", explica.

Tem havido celebrações cristãs na praça, rodeadas por muçulmanos em gesto de proteção. Num cartaz de papelão feito à mão, uma lua crescente e uma cruz selam a harmonia entre as duas religiões, num país em que são comuns ataques contra igrejas coptas (cristãs). O último ocorreu na virada do ano, em Alexandria, em que a explosão de uma bomba matou 23 pessoas. Um cartaz escrito em inglês, dirigido a Mubarak, diz: "Obrigado por nos unir. Agora vá embora."

Rindo, Wagdi saca o celular do bolso para fotografar um homem com outro cartaz: "Mubarak, filho de Shaddad (herói pré-islâmico da Península Arábica), usou os camelos dele para liberar a praça", em referência à montaria usada por homens que atacaram os manifestantes na semana passada. Os egípcios trouxeram sua famosa verve humorística para a praça. Outro cartaz diz: "Eu preferia que o primeiro ataque aéreo (do Egito contra Israel, na guerra de 1973, que resultou na derrota árabe) tivesse sido contra o Egito, e Mubarak tivesse governado Israel por 30 anos." Uma moça segura um cartaz pedindo: "Preciso me formar. Vão embora." Escolas, assim como o comércio e serviços, estão fechadas desde o início dos protestos.

Do outro lado da praça, parte das pedras reunidas para defender os manifestantes dos ataques de grupos pró-Mubarak é usada para escrever frases no chão, como "US$ 70 bilhões", a fortuna que se acredita que Mubarak e sua família tenham amealhado intermediando virtualmente todos os negócios importantes no país. E, para ter certeza de que o presidente entendeu, a mesma mensagem foi escrita com pedras em quatro línguas: "Go away, Fuera, Dégage, Raus". Há muitas palavras de ordem, mas a preferida é essa: "Erhal" - "Vá embora".

"Ele é presidente desde que nascemos", dizem Mohamed e Wagdi. "Chega."

PARA ENTENDER

Cristãos coptas são 9% da população

A imensa maioria dos egípcios (90%) é de muçulmanos sunitas. Em segundo lugar vêm os cristãos ortodoxos coptas, cerca de 9% da população nacional. O centro da religião é Alexandria, onde fica o patriarca da Igreja, atualmente o papa Shenouda III. Estima-se que existam hoje cerca de 20 milhões de cristãos coptas, sendo que 16 milhões estão no Egito. Fiéis estão também espalhados pelas regiões central, leste e sul da África.

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