domingo, 20 de fevereiro de 2011

A devota eo ateu no terreno da fé‎


A publicação simultânea de Em Defesa de Deus,da teóloga Karen Armstrong, e do autobiográfico Hitch-22, do rebelde Christophr Hitchens, traz à tona novos argumentos para o debate religioso


Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

A ponte que separa a ex-freira e teóloga inglesa Karen Armstrong do jornalista e escritor também inglês, naturalizado norte-americano, Christopher Hitchens passa sobre o mesmo rio, o da religião. Por coincidência, estão sendo publicados ao mesmo tempo no País os mais recentes livros dos dois, Em Defesa de Deus, de Karen Armstrong, e Hitch-22, a autobiografia de Hitchens, escrita a toque de caixa depois que ele foi diagnosticado com câncer no esôfago. Em sua obra, a inglesa reserva sérias críticas ao patrício, que há quatro anos escreveu um best-seller, Deus Não É Grande, com mais de 300 mil exemplares vendidos. Hitchens, no seu Hitch-22, não menciona Karen Armstrong, mas, na última entrevista concedida antes da metástase que chegou ao pulmão do inveterado fumante, em novembro passado, ele voltou à carga contra os que condenam seu ateísmo, soltando um epigrama filosófico digno do austríaco Wittgenstein (1889-1951): "O que pode ser afirmado sem evidência também pode ser rejeitado sem evidência".

Hitchens foi batizado pela mídia um dos "quatro cavaleiros do Apocalipse", como ficou conhecido o quarteto ateísta formado por ele, o zoólogo evolucionista britânico Richard Dawkins e os filósofos norte-americanos Sam Harris e Daniel Dennett. Em Deus Não É Grande, Hitchens defende que "Deus não criou o homem à sua imagem, mas o contrário", o que explicaria a profusão de deuses e religiões que, segundo ele, "tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização". Para Hitchens, nenhuma religião oferece respostas às perguntas mais elementares e a fé num ser supremo não passa de uma crença totalitária que abala os alicerces da liberdade individual.

Karen Armstrong não pensa assim, mas já pensou, assumindo ter sido uma espécie de Richard Dawkins de saias depois que abandonou o convento, aos 25 anos, e passou por uma crise de fé. Hoje, ela diz que compreende a irritação dos novos ateus, porque, como explicou em suas memórias, A Escada Espiral, durante muitos anos não quis nada com a religião, afirmando mesmo que alguns de seus primeiros livros "tendiam ao dawkinsesco". Para Karen, é uma pena que Dawkins, Hitchens e Harris - ela poupa o darwinista neural Dennett - "se expressem com tanto destempero, porque algumas de suas críticas são válidas", entre as quais, os petardos atirados por Hitchens nos fundamentalistas islâmicos.

Surpreendentemente, Karen observa em seu livro que, na verdade, os novos ateus "não são suficientemente radicais". Teólogos judeus, cristãos e muçulmanos repetem há séculos que Deus não existe sem que a fé dos religiosos se abale. "Com isso eles não pretendem negar a realidade de Deus, mas salvaguardar a transcendência divina", justifica a autora. Em nossa "sociedade falastrona", conclui, essa tradição do silêncio, que foi esquecida, podia evitar uma montanha de transtornos religiosos.

Em seu livro, Karen concentra-se no cristianismo - ela que escreveu sobre Buda e Maomé, entre os seus 15 livros que tratam de Deus e religiões - "porque é a tradição mais diretamente afetada pelo advento da modernidade científica e a mais castigada pelo novo ataque ateísta". Tanto Hitchens como Dawkins seguiriam, segundo a autora, "um naturalismo científico linha-dura, que reflete o fundamentalismo no qual baseiam sua crítica". O ateísmo, define a acadêmica, "sempre é a rejeição de uma forma específica de teísmo e depende dela como um parasita". Hitchens dependeria totalmente de uma leitura literal da Bíblia, critica a ex-freira. Dawkins, como os fundamentalistas protestantes, teria uma visão simplista dos ensinamentos morais da Bíblia. Os dois - além de Sam Harris - apresentariam a religião no que ela tem de pior, argumenta Karen.

E o que ela tem de pior? O fundamentalismo, segundo a autora, por ser uma forma de fé que com frequência "deturpa a tradição que está tentando defender". A religião, defende Karen, é uma "disciplina prática" que depende de exercícios espirituais e uma vida de dedicação. A racionalidade científica pode até explicar o câncer de Hitchens, mas não pode aplacar seu pavor, observa. Hitchens, que já enfrentou outras tragédias - a mãe se matou num pacto com o amante - teve de engolir o próprio discurso contra o Estado de Israel ao descobrir que a avó materna trocara o prenome judeu Levin por Lynn e que seus ancestrais poloneses tinham como sobrenome Blumenthal.

O jornalista e escritor não nutre simpatia pela ideia sionista, mas dedica um capítulo inteiro de suas memórias a esse conflito pessoal por ter sido criado como católico inglês e forçado pela avó a retomar suas raízes. Diz que não mudaria para Israel, mas se qualifica "como um membro da tribo", embora tenha brigado com Saul Below num jantar ao defender seu amigo Edward Said, justamente no dia em que o palestino foi manchete da revista Commentary, que o classificou de "professor de terror". Hitchens não conseguiu se livrar totalmente do seu trotskismo.

Intolerância
Outra revelação de Hitch 22 que explica a aversão religiosa do autor, casado por duas vezes e com três filhos, é sua homossexualidade, camuflada durante anos. No colégio, em Cambridge, se apaixonou por um garoto loiro de pernas arqueadas, sorriso malicioso e "ligeiramente de direita", o que ele logo resolveu perdoar. Pegos em flagrante, quase foram expulsos da escola, mas os professores convenceram a direção que Hitchens teria boas chances em Oxford, evitando assim o vexame público - e uma ação judicial, porque a homossexualidade era, então, considerada crime na Inglaterra. Hitchens talvez tenha evitado antes o assunto para não dar munição a seus inimigos - e eles são muitos, porque o jornalista defendeu a guerra contra o Iraque, inventou o termo islamofascismo e arrasou com a reputação de madre Teresa de Calcutá, acusando-a de bajuladora de fascistas e de estar a serviço dos poderosos.

Hitchens é intolerante com religiosos e comunga com Sam Harris a ideia de que a própria defesa da tolerância religiosa está nos levando para o abismo. Nessa radicalidade, segundo Karen Armstrong, ambos se assemelham aos fundamentalistas religiosos - "embora devessem ter em mente que foi por não respeitar diferenças que uns e outros cometeram as piores atrocidades na era moderna", citando os campos de concentração nazistas e o Gulag soviético. Como exemplo extremo, a autora repete uma velha história sobre judeus que perderam a fé em Auschwitz e resolvem colocar Deus em julgamento, condenando-o à morte por ser onipotente e permitir o horror nazista. O rabino que dá a sentença é o mesmo que depois conclama os prisioneiros a rezar.

Deus pode estar morto, como sugere a fúria dos ateístas, mas a ex-freira recomenda aos pós-modernos recuperar a vida espiritual que tinham nossos ancestrais, visitando 2 mil anos de teologia para provar que não são as doutrinas, mas a prática de rituais e a introspecção que vão trazer Deus de volta à vida - uma heresia escandalosa para os ex-irmãos de fé de madre Martha, nome religioso adotado pela autora de Jerusalém (tradução de Hildegard Feist, 576 págs., R$ 34) que está sendo relançado, em edição de bolso, pela Companhia das Letras. Nele, Karen comenta a suprema ironia dessa cidade de fé (para a qual convergem os três monoteísmos, cristão, judaico e muçulmano) ser palco de tanta discórdia.

Ancestrais O que de mais interessante traz o livro Em Defesa de Deus - e vai incomodar os seguidores de Hitchens - é o elogio das religiões primitivas, caracterizadas por rituais, danças, sacrifícios e cantos. É também em defesa dos apóstatas que Karen recomenda o silêncio sobre algo ou alguém do qual ou de quem nada se sabe - e, nesse ponto, ela evoca, como Hitchens, a filosofia de Wittgenstein, autor da frase "Sobre o que não se pode falar deve-se manter silêncio". Para Karen, religião é como música. Não se pode explicar, mas se ouve com prazer e, de quebra, ela ainda opera milagres como acalmar bebês, fazer crescer as flores e curar algumas doenças.

A autora teve esse insight - para usar uma expressão do jesuíta canadense Bernard Lonergan (1904-1984 ) -, ao visitar as cavernas de Lascaux e verificar que religião e arte já surgem inseparáveis. A experiência da iniciação do homem ancestral prova, segundo ela, que não existe no pensamento arcaico o conceito do sobrenatural, ou seja, "nenhum abismo entre o humano e o divino". Não existia o ser supremo, mas apenas um ser.

"Nossos ancestrais normalmente imaginavam uma raça de seres especiais que chamavam de deuses", escreve Karen. Ao se cobrir com peles sagradas para personificar o mestre animal, o sacerdote assumia temporariamente o poder divino, lembra ela, ritual que não era produto de ideias religiosas - ao contrário. Pode parecer que a ex-freira entrou para o time de Hitchens, mas é só impressão. A exemplo de Diderot, ela crê em Deus, contudo vive muito bem com os ateus, como respondeu a Voltaire, que o criticou numa carta. Diderot foi aprisionado por escrever um texto ateísta, ele que cogitou ser jesuíta. Karen, pelo menos até agora, escapou da Inquisição.

+ Hitchens costura memórias com honestidade brutal

Nenhum comentário: