quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Alienado e alienigena

Por Dr. Ricardo Borges Lourenço

Tem gente que passa pela vida sem se relacionar com o que à vida se relaciona. Não sabe de nada, não se envolve em nada, não se interessa por nada que diz respeito à vida em sociedade. Vive alienado da realidade que o cerca e dos fatos que interferem diretamente em sua vida Diz que não tem nada a ver com política. Religião não faz sua cabeça.

Filantropia não é sua praia. Não perde tempo com jornais ou telejornalismo. Ler um livro? Nem pensar! Só vota, para não pagar multa ou ter o título cancelado. Não participa de festas de aniversário, casamento, formaturas, natal, ano novo ou qualquer outro evento social. Não gosta da relação interpessoal.

O alienado se desinteressa por tudo que não é feito por ele, ainda que tenha sobre ele algum efeito. Nada do que é votado nas Câmaras (municipal, estadual e federal) lhe interessa. Não sabe o nome de seus governantes ou dos vices e de nenhum político, ainda que tenha votado em alguns deles; até dos vizinhos desconhece os nomes.

Com tantas coisas acontecendo ao seu redor, o alienado age como um alienígena vindo de um planeta qualquer, que nada conhece e nada entende do planeta terra. A diferença é que os alienígenas do cinema se interessam imediatamente pelo nosso planeta e sua vida dinâmica, enquanto o alienado continua alheio a tudo e a todos.

Saber tudo, estar antenado em tudo é uma tarefa ingente, talvez até impossível. Acompanhar todos os acontecimentos mundiais e todas as votações nas Câmaras também é improvável que alguém faça. Saber a escalação de todos os clubes de futebol e particularidades dos vizinhos é até desaconselhável.

Mas não se interessar pela vida familiar e social, não se informar dos fatos que afetam seu cotidiano e não se atualizar pela leitura e pelos telejornais é ser um eremita urbano; é uma clausura social, só comparada aos internos de manicômios.

Poupar-se da overdose de informação é salutar; desinteressar-se dos fatos é alienação. Não ler todos os jornais ou assistir todos os telejornais é absolutamente aceitável; não querer ler nenhum jornal ou assistir um telejornal é ignorar a realidade.

Não poder atender a todos os convites para aniversário, casamento e formaturas é compreensível; não participar de nenhum evento social é esquivar-se do convívio em sociedade.

Todos temos desconhecimento de vários assuntos e fatos. Não sabemos de tudo, não lemos tudo e não conhecemos todos os que transitam na rua de nossas casas. Existem também assuntos que não nos interessam. Mas isto não nos torna um alienado.

A alienação é mais séria e preocupante que alguma desinformação. A desinformação sobre alguns aspectos da vida pode ser corrigida com brevidade e eficácia. A alienação exige muito investimento de tempo e outros recursos para sua remissão.

É melhor ser um alienígena, mas com profundo interesse no que acontece em nosso planeta, que ser um alienado que deixa tudo passar despercebido pela sua desatenção e desinteresse total.

Dr. Ricardo Borges Lourenço - Psicanalista e Pastor da Igreja Metodista Independente, em Ribeirão Preto - SP
Fonte: A Hora

2 comentários:

Tom Alvim disse...

Muito bom o texto. Devemos participar da vida na qual estamos inseridos e dar a nossa contribuição para a nossa sociedade de forma realmente efetiva.
Parabéns.

Rodney Eloy disse...

É verdade Tom, e obrigado pela visita e pelo recado!