quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Radical Chic

Biografia do magnata Friedrich Engels, que ajudou Marx a alavancar a teoria comunista, mostra que ele foi um bon vivant que amava vinhos e prostitutas

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo

Professor da Universidade de Londres, Tristram Hunt, aos 36 anos, é uma figura conhecida por seus programas de História na TV britânica. Já apresentou especiais sobre temas tão variados como as teorias de Isaac Newton e a ascensão e queda da classe média inglesa, o que o levou até um magnata vitoriano de origem alemã que gostava de dormir com prostitutas, beber bons vinhos e viver a vida louca em suas viagens a Paris.


Reprodução
Bipolar. Ele se confundia com Oswald, o motanhês

Paradoxalmente, esse homem sustentou seu amigo alemão Karl Marx por 40 anos, ajudando-o na elaboração de uma teoria que mudou radicalmente a face do mundo, ao difundir a doutrina comunista. É sobre Friedrich Engels (1820-1895), seu biografado no livro Comunista de Casaca, que Hunt concedeu com exclusividade ao Estado a entrevista a seguir.

Seu livro mostra Engels como um hipócrita por ter um estilo de vida diferente do padrão que presumidamente um comunista deveria ter. Por que preferiu explorar a vida privada de Engels no lugar de sua atividade política?

Não vejo Engels como um completo hipócrita, mas parece claro o descompasso entre seu pensamento filosófico e sua vida pessoal: ele criou um estilo de vida em cima da mais-valia dos operários de sua empresa Ermen & Engels, vivendo como um magnata em Londres graças ao capital investido em várias empresas coloniais. Bastante crítico em assuntos como a exploração sexual da mulher, frequentava prostitutas. Considero que tudo isso faz de Engels um personagem fascinante para um biógrafo. Além disso, Engels nunca olhou para essas contradições com vergonha. Seus opositores políticos frequentemente o criticam por acumular capital nas costas de seus operários, mas Engels encarava isso como uma incontornável atitude para financiar Marx dentro da lógica do capitalismo. Então, mantive o foco na vida pessoal de Engels não para condenar o homem, mas para explorar essas contradições.

O verdadeiro tema de seu livro, no entanto, parece ser a relação entre Engels e Marx. O senhor acha que esse lento revival do marxismo a que assistimos prova que ambos estavam certos ao defender que a crise do capitalismo é inevitável?

Acho que Marx e Engels responderam às questões certas do capitalismo. Afinal, a crítica de ambos à dinâmica do capitalismo resiste há 150 anos na Europa. A era fundamentalista do mercado livre, do neoliberalismo e da globalização é o mundo do Manifesto Comunista e de O Capital, embora a solução apresentada por ambos sobre o capitalismo seja falha em inúmeros pontos. Em primeiro lugar, enquanto a instabilidade do capitalismo é bem analisada por Marx e Engels, a inevitabilidade de uma crise revolucionária e sísmica é menos explorada. A economia do marxismo foi um produto específico do mundo industrial europeu do século 19, pouco relevante nos dias que correm.

Seu livro tira Engels da sombra de Marx, mas o fato é que ele recusou o papel de pai do comunismo, sacrificando-se por devoção a Marx. O que fez Engels ser um ator coadjuvante na história do marxismo?

É verdade, houve o apoio pessoal a Marx - e não apenas o financeiro, mas a contribuição intelectual na descrição da natureza do capitalismo, vinda da experiência de Engels como industrial em Manchester. O que eu acho fascinante em Engels é a direção que ele deu ao marxismo. Foi Engels quem criou a escola do feminismo marxista, definindo o sexismo como uma construção econômica. Foi também Engels que inspirou Lenin em seu discurso anti-imperialista. E, mais importante, foi Engels que pavimentou a estrada em direção ao materialismo dialético, combinando a revolução científica do século 19 com o pensamento marxista. Engels foi, a seu modo, um filósofo poderoso.

Engels não era fã ardoroso do núcleo familiar. Na verdade, parecia detestar a família burguesa. Em que medida ideias como a igualdade entre homens e mulheres e a abolição da propriedade privada refletem seu verdadeiro credo ideológico?

Engels era um boêmio. Como Marx, burguês de classe média, sentia um genuíno desconforto em relação ao sistema familiar, o que explica sua atração pelo estilo de vida de suas amantes iletradas de Manchester, as irmãs Mary e Lizzy Burns, e a paixão pela vida noturna parisiense. Ele acreditava que a família e a propriedade privada desapareceriam com o advento do socialismo e arrisco dizer que pensava mais no núcleo familiar que o próprio Marx, sendo influenciado nesse particular pelo socialismo utópico de Robert Owen e Charles Fourier.

Engels ajudou Marx a vida toda, financiando-o por 40 anos e ajudando-o a viver como um representante da classe média. É possível que ambos fossem, como se diz, avessos ao contato direto com operários?

Marx e Engels sempre defenderam que a revolução partiria dos trabalhadores. Acreditavam, de fato, nas lideranças operárias de partidos comunistas e olhavam com antipatia para os bem-intencionados da classe média. Mas ambos eram intelectuais que gostavam da companhia de seus pares, pensadores socialistas mais facilmente encontrados na classe média. Acreditavam, enfim, que o proletariado seria o veículo de um processo mais amplo de ressurreição social. Dito isso, Marx e Engels podiam ser muito rudes quando topavam com operários que consideravam estar na direção errada.

O senhor defende Engels contra a acusação de ter consciência da apropriação de suas ideias por regimes totalitários, mas é certo que ele defendeu a liquidação das classes sociais. Ele não teria ajudado as ditaduras?

O jovem Engels disse coisas ásperas sobre a necessidade de força para preservar a revolução durante a chamada "ditadura do proletariado". Mas o Engels maduro, pluralista, defendeu que o socialismo poderia emergir por meio das urnas. O totalitarismo louco da era Stalin certamente não era o da visão engelsiana.

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