terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cultura pop, uma arma sul-coreana contra o regime norte-coreano

Novelas e músicas da Coreia do Sul ultrapassam a fronteira e aproximam os dois países inimigos

Jairo Mejía, da EFE

A cultura pop sul-coreana ultrapassou o ferrenho controle da Coreia do Norte e conquistou os governados de Kim Jong-il por meio de novelas e música dançante, um fenômeno que é narrado por refugiados e especialistas. Com seus galãs de novela e suas bandas pop, a "Korean Wave" (Onda Coreana), movimento que sacode a Ásia, está chegando ao regime comunista norte-coreano para aproximar dois países separados desde o fim da Guerra da Coreia, em 1953.

"As pessoas já não acreditam na propaganda do regime como antes e questionam a ideia de que os problemas da Coreia do Norte são culpa do inimigo", diz à Agência Efe Kim Young-il, um refugiado norte-coreano que vive no Sul desde 1996 e que fundou a associação Pessoas pela Reunificação Bem-sucedida da Coreia (PSCORE, na sigla em inglês).

Discretamente, Kim revela que consegue se conectar quase diariamente com a Coreia do Norte por telefone, já que os habitantes próximos à fronteira com a China escondem celulares operados por companhias chinesas que os permitem saber o que acontece atrás dos muros de seu país. Um grande número de norte-coreanos já não vive alheio ao mundo que os rodeia como há dez anos, quando ser descoberto com filmes sul-coreanos, uma bíblia ou um receptor de rádio não autorizado era garantia de punição com trabalhos forçados.

Para Yang Un-chul, especialista em Coreia do Norte do Instituto Sejong, no regime comunista estão ocorrendo mudanças inéditas com "a chegada de mais informação de fora e experiências de sobrevivência no livre mercado". Para o especialista, Kim Jong-il já não consegue manter sua imagem de líder infalível, sobretudo após a repentina reforma monetária que promoveu em 2009 para evitar o comércio com moeda estrangeira, o que provocou protestos e não foi eficaz na extinção do mercado negro.

Yang relata, porém, que as mudanças são observadas em cidades grandes como a capital, Pyongyang, e nas províncias vizinhas à China. Nas regiões rurais, o isolamento e a fé cega no sistema continuam sendo a tônica. Nas metrópoles e nas regiões de fronteira, a música e as populares novelas sul-coreanas se transformaram em objeto de admiração dos jovens norte-coreanos, que imitam seus artistas favoritos e obrigaram o regime a relaxar suas leis draconianas, segundo relata a imprensa por meio de informantes do norte.

O Ministério da Defesa sul-coreano começou a discutir a possibilidade de utilizar a cultura pop, com suas atraentes atrizes e cantores, como instrumento para desmoralizar as tropas norte-coreanas, segundo o jornal conservador "Chosun Ilbo".

O professor Kim Young-soo, da universidade sul-coreana de Songang, apresentou recentemente um novo e completo relatório sobre as novas tendências na Coreia do Norte com base nos depoimentos de 2 mil exilados norte-coreanos que acabavam de escapar de seu país. Segundo a pesquisa, as jovens norte-coreanas gostam cada vez mais de se vestir com calças jeans apertadas, no lugar dos vestidos tradicionais e dos uniformes, enquanto os "dramalhões" sul-coreanos "vendem como água". Séries românticas como "All in" e "Winter Sonata" (um dos primeiros sucessos da Onda Coreana a atravessar a fronteira) chegam à Coreia do Norte em DVD através da fronteira com a China sem muitas complicações e se transformaram em uma alternativa à televisão estatal, que monopoliza as telas do país com marchas militares, imagens de Kim Jong-il e notícias carregadas de linguagem hostil.

O isolamento entre as duas Coreias desde a guerra gerou diferenças no idioma. Agora, até isso parece estar diminuindo. Os norte-coreanos têm aprendido, com as novelas, o jeito do sul de falar.


Fonte: Época

Nenhum comentário: