sábado, 18 de dezembro de 2010

A sinfonia dos fracassos

O longa-metragem O concerto, de Radu Mihaileanu

Luís Antônio Giron - Época
DE PARTIDA
Alexander, Ivan, Andrei e sua mulher (da esq. para a dir.) à frente dos músicos, em Moscou, para a viagem a Paris. Confusão pela frente

O longa-metragem O concerto, de Radu Mihaileanu, não é só um musical. À maneira do italiano Federico Fellini, o diretor romeno usa uma orquestra como ícone das conturbações que a Rússia enfrentou com o fim do comunismo. Seu foco é o antissemitismo soviético, um tema pouco explorado. Mihaileanu havia abordado a questão judaica em Um herói do nosso tempo (2005), sobre a discriminação sofrida em Israel pela tribo etíope falasha, de origem judaica. Em O concerto, o cineasta usa a comédia para montar sua alegoria. É um dos indicados ao Globo de Ouro na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Em 1980, o maestro Andrei Filipov (Alexei Guskov), titular da Orquestra do Teatro Bolshoi de Moscou, afronta o regime soviético ao se negar a expulsar os músicos judeus de seu grupo. Em meio à apresentação do Concerto para violino, de Tchaikóvski, o administrador do teatro, Ivan Gavríolov (Valeri Barínov), interrompe o concerto e quebra a batuta do maestro, acusando-o de “inimigo do povo”. Trinta anos depois, Andrei trabalha no Bolshoi como faxineiro. Com o passar dos regimes, as orquestras já não são estatais. Os oligarcas preferem comprar times de futebol a bancar artistas. A orquestra atual do Bolshoi é medíocre. Andrei, expurgado pelo comunismo, não se recobra após a abertura política. É um artista frustrado. Felizmente, o acaso intervém: um fax do Théâtre du Chatêlet convida a orquestra do Bolshoi para um concerto de última hora em Paris. Andrei rouba o fax e arregimenta uma orquestra por conta própria. Ao lado de Alexander (Dmitri Nazarov), violoncelista judeu que trabalha como motorista, sai à cata de 55 músicos no ostracismo para formar o grupo. E obriga Ivan, o burocrata que havia interrompido o concerto, a assumir a administração. Ex-poderoso, Ivan faz exigências como se hospedar em um hotel três estrelas, passear de barco pelo Rio Sena e jantar em um restaurante comunista que não existe mais. O único pedido do maestro Andrei é a participação da jovem violinista Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent) como solista. As vidas dos dois estão ligadas, de alguma forma.

Para viajar, os músicos falsificam os vistos. Como ninguém toca há tempos e Paris é divertida, a confusão se arma. A real orquestra do Bolshoi descobre a farsa e corre a Paris. O grupo de fracassados afina os instrumentos. Andrei ergue a batuta. O concerto é uma fábula sobre a força política da beleza e do improviso

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