quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O culto ao Che: solução do enigma


Como revolucionário, Che Guevara foi um vulgar tiranete, um assassino que se comprazia em executar pessoalmente as sentenças de morte que assinava; como ministro da Economia, foi um fiasco do qual o próprio regime cubano se livrou o mais rápido que pôde; como guerilheiro, foi um recordista da inépcia, capaz de perder para o exército mais pífio da América Latina. Que encantos possui esta porcaria de personagem para que tantos brasileiros se babem de gozo devoto ante sua imagem e concedam mais vasta homenagem aos trinta anos de sua morte do que aos trezendos do nascimento de Vieira e aos quatrocentos de Anchieta? Associar a barba rala de adolescente a algum odor de santidade, me desculpem, mas é pura perversão sexual: Não explica nada. Quanto aquilo de "no perder la ternura", é apenas uma frase e nada de novo nos informa: o sentimentalismo é o pedant clássico e inevitável da crueldade. O culto de Che Guevara é um enigma que a própria figura do Che não elucida. Suas razões não estão na natureza do objeto cultuado, mas na psicologia de seus sacerdotes.

Para encontrá-las, é preciso dar a pergunta uma formulação mais geral: Por que o socialismo, um fracasso na realidade, continua persuasivo como "ideal"? Por que o liberalismo vitorioso é incapaz de suscitar nas massas um entusiasmo comparável? Por que a imagem do regime que escraviza e empobrece ainda é mais atraente e amável que a daquele que liberta e enriquece?

O prestígio das idéias está sempre associado ao dos intelectuais que as produziram. A resposta a essa pergunta deve ser buscada numa comparação entre os intelectuais das duas facções. E então a primeira coisa que chama a atenção é que eles não se ocupam dos mesmos assuntos, nem se notabilizam nas mesmas áreas de investigação. Os liberais levam a taça, com a maior facilidade, na Economia, no Direito e na Ciência Política. Não se encontrará na esquerda um Böhm-Bawerk, um von Mises, um Hayek; nem um Weber, um Aron, um Del Vecchio, um Kelsen, um Reale, um Santi Romano. Para compensar, a esquerda dominou quase por completo os estudos sobre o imaginário coletivo, os símbolos e as linguagens nas artes e na vida social. Não há entre os liberais um Lukács, um Benjamin, um Gramsci, um Foucault, um Deleuze, um Chomsky.

A diferença é significativa: os liberais ocuparam-se de encontrar soluções reais para problemas reais, os socialistas se esforçaram em remexer idéias, símbolos, imagens, mitos e slogans: dominaram o imaginário, enquanto os liberais punham pra funcionar o sistema econômico e faziam, por assim dizer, a parte suja do serviço. Em resultado, hoje, os liberais criam riqueza para que os socialistas gastem em cosméticos culturais. Cada empresa jornalística ou cinematográfica, cada rede de televisão, cada editora de grande porte tem na diretoria uma equipe de esforçados burros-de-carga liberais que trabalham sessenta horas por semana e fazem a máquina andar, para que os esquerdistas, livres de preocupações com este baixo mundo, possam brilhar nos palcos, nas telas, nas capas de revistas e livros, formando a mais vasta exposição do beautiful people já oferecida à admiração do mundo, como emblema elegante de excelsas qualidades morais que geralmente consistem apenas de vaidade, presunção, rancor injusto e falta de senso do real.

Não é preciso dizer que o prestígio do socialismo depende de que ele se conserve sempre como um ideal, sem ter de prestar satisfações à realidade: daí a pressa que seus defensores mostram em procurar desligá-lo magicamente de toda responsabilidade pelos feitos históricos do "socialismo real", para conservá-lo puro e intacto no céu das idéias platônicas. Mas além de ter a seu serviço a máquina econômica, a auto-complacência esquerdista ainda possui, para a manutenção de seus lazeres criativos, as verbas de instituições estatais concebidas precisamente para a finalidade de contentar as estrelas das artes, das letras e do show business.

Se não é sempre verdade o que pretendia Marx, que a posição social dos homens determina sua consciência, isto não impede que o seja às vezes. Pelo fato mesmo de ela não ser uma necessidade fatal, de poder ser neutralizada pela consciência crítica do indivíduo, a força condicionante da posição social se torna mais decisiva quando mais inconsciente. Ora, ninguém mais inconsciente de sua posição na sociedade do que os intelectuais esquerdistas no capitalismo - uma casta privilegiada e poderosa, semifundida à burocracia estatal, dona dos meios de difusão de idéias, senhora quase absoluta da educação, do mundo editorial, da imprensa e da opinião pública, e que não obstante tem sempre o nítido sentimento de que são os outros que estão no poder, não ela. O histrionismo patético com que essa elite denuncia "as elites", sem jamais reconhecer que faz parte delas, mostra a que irresponsabilidade pode se tornar o esteio básico de um modo de existência inspirado na ignorância culposa das condições sociais que o possibilitam. Essas pessoas, literalmente, vivem na esfera da ilusão e da mentira, daí a especial capacidade, que nelas se desenvolve, para iludir os demais. Daí também a possibilidade da paradoxal devoção ao Che, que se resolve num diagnóstico de pura inversão histeriforme: exibir como objeto de culto aquilo que no fundo é motivo de vergonha.

Por Olavo de Carvalho
Publicado originalmente no Jornal da Tarde em 26 de junho de 1997

2 comentários:

Prof. Dutra Santos disse...

Olavo sempre Olavo.

Sempre atual!

tati west disse...

Sou sua (mais nova) fã!
Obrigada por elucidar minha visão de mundo.