quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Medo substitui espírito natalício na comunidade cristã do Iraque

Acreditam no nascimento de Jesus Cristo no dia 24 de Dezembro e no Pai Natal, mas deixaram de acreditar na livre expressão deste tipo de crenças no seu país. Os cristãos iraquianos preparam-se para passar um Natal bem triste.

Os riscos que correm atualmente levaram o conselho dos bispos iraquianos a limitar a celebração de cerimónias religiosas nesta quadra natalícia.

“Vamos ter menos celebrações este ano do que no ano passado. As pessoas têm medo, não se podem deslocar facilmente por causa dos últimos ataques contra cristãos”, afirma Evan Korkis, comerciante em Bagdade.

No dia 31 de Outubro, a catedral siríaca católica de Bagdá foi tomada de assalto durante a missa por um comando suicida da al Qaeda. 52 cristãos morreram no ataque de uma violência extrema e cega. O padre Amir Jaje tem como missão relembrar o que aconteceu na catedral.

“Aqui estão os nossos mártires: jovens, crianças… um bebê de quatro meses. Este bebê estava a chorar e a mãe não o conseguia calar. Ele continuava a chorar e eles dispararam contra o bebê.”

O ataque de Outubro foi o pior, mas não o primeiro contra a comunidade cristã do Iraque.

“O governo não é capaz de proteger os seus próprios cidadãos”, conclui o padre Jaje.

O massacre, na véspera do Dia de Todos os Santos, provocou o êxodo de milhares de cristãos iraquianos, de acordo com a Agência da ONU para os Refugiados. Desde 2003, 400 mil iraquianos terão abandonado o Iraque. Os cristãos iraquianos representam 2% da população contra 97% de muçulmanos sunitas e xiitas.

Nos últimos dois meses, o número de candidatos a abandonar o país aumentou. A família Marzena perdeu um filho e um neto no ataque contra a catedral. O seu destino vai ser a França. A filha mais nova, Shaad Marzena, explica porquê.

“É evidente que depois de terem ousado entrar na catedral agora são capazes de tudo para nos eliminar.”

Ihab Adnan e a mãe vivem sozinhos. No ano passado, a família ganhou o prémio da árvore de Natal mais bonita. Este ano, enquanto esperam por uma oportunidade de deixar o país, os caixotes e uma casa praticamente vazia substituem o espírito natalício.

“Espero que os países que se mostraram dispostos a nos receber respeitem as suas promessas porque eu não posso viver uma vida normal aqui. Sou como um morto. Sou um corpo sem alma”, lamenta Ihab.

O pluralismo religioso no Iraque é tão antigo quanto o país. E se uns temem pelas suas vidas, outros decidiram ficar e defender a sua religião. O padre Al-Bazi é director da Escola da Virgem Maria que tem 800 alunos. Dois terços são muçulmanos e um terço é cristão.

Raptado, baleado, este padre passou por todas as tentativas de intimidação, mas não renuncia e vê a sua escola como a prova de que as religiões podem coexistir no Iraque.

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