sábado, 11 de dezembro de 2010

Jesus contra Saramago


A idolatria a José Saramago em Portugal não significa que o escritor esteja alheio a críticas em seu país natal. Um bom exemplo é a obra que o padre, teólogo e escritor Jesus Herrero acaba de lançar. Apesar de não se tratar exatamente de um livro de crítica literária, Os Fantasmas de Saramago parte das obras e, principalmente, ideias de Saramago para propor reflexões a respeito da vida. E, para fazê-lo, critica em especial a visão cética e irônica do escritor a respeito do cristianismo. “Discutir Saramago é perda de tempo”, afirmou Herrero, durante o evento de lançamento do livro esta semana, em Lisboa. Tal afirmação, vinda de alguém que usa o nome de Saramago no título do próprio livro, pode parecer estranha, mas Herrero explica que “o objetivo da obra é utilizar a escrita de Saramago como pretexto para falar do que interessa: a filosofia”. Isto porque, quando o assunto é religião, o padre e escritor acredita que José Saramago não tinha nada além de “pontos de vista” e que “sua literatura não foi capaz de libertá-lo da frustração de não conseguir organizar um sistema de ideias original e profundo”.

No livro, Jesus Herrero se vale do pensamento dos filósofos espanhóis José Ortega y Gasset e Julián Marías para debater e desconstruir a visão de Saramago sobre questões referentes a Deus, a mortalidade e a vida. As críticas, porém, não ficam apenas no plano da teologia. Para Jesus Herrero, o estilo de narrativa “torrencial” utilizado pelo escritor português é, na realidade, uma maneira de mascarar a falta de profundidade de suas opiniões.

Uma das responsáveis pela edição do livro, Gloria Ribeiro acredita que a morte do escritor em junho deste ano e a crise econômica devem esfriar eventuais polêmicas. “Infelizmente, o que se vende hoje são autores midiáticos de pouca substância. Jesus Herrero é um verdadeiro filósofo.” A obra, lançada pela Planeta Editora, por enquanto será publicada apenas em Portugal.

Daniel Lisboa/Especial para BR Press

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