quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Estudo aponta que adolescentes podem estar se tornando mais egocêntricos e depressivos

Uma pesquisa, feita pela Universidade de Columbia, EUA, e capitaneada por Suniya Luthar, mostrou que adolescentes de famílias com maior poder aquisitivo têm maiores taxas de depressão, ansiedade e abuso de substâncias químicas do que os de outros grupos socioeconômicos.

“As famílias de estratos socioeconômicos mais baixos enfrentam grandes desafios”, diz a pesquisadora, que assina outro estudo sobre saúde mental em crianças de famílias com baixo orçamento. “Mas ao que parece, existem fatores atenuantes para que elas não desenvolvam os mesmos tipos de problemas de crianças de outras faixas econômicas.”

Os adolescentes privilegiados parecem ter obstáculos mais constantes, entre eles aqueles relacionados a uma sociedade cada vez mais narcisista. Além disso, diz Dan Kindlon, outro pesquisador envolvido no estudo, as famílias encolheram e esses adolescentes são vistos como crianças preciosas. “É difícil acreditar que o mundo gira ao seu redor quando se tem muitos irmãos e irmãs”, diz Kindlon.

Algumas pesquisas também apontam que o problema pode ser gerado pelos pais desses indivíduos, que enfatizam as notas e as performances acadêmicas, em vez de ações que valorizem o caráter.

Madeline Levine, autora de um livro sobre o assunto, intitulado “O preço do privilégio” (The Price of Privilege: How Parental Pressure and Material Advantage are Creating a Generation of Disconnected and Unhappy Kids, HarperCollins, 2006) aponta que as mães desse tipo de adolescente estão em preocupação constante, quase doentia, quando o assunto são seus filhos. E isso pode gerar respostas conflitantes em seus filhos, mesmo que as intenções dos pais sejam as melhores possíveis.

Geração “tudo para mim”

A primeira opção de título para seu livro, diz Levine, era “Como criar uma criança tipicamente normal”. “O problema é que nenhum pai acha que seu filho é uma criança ‘na média’”, diz a autora. E os pais não são os únicos que insistem na ideia de que seus filhos são especiais ou “acima da média”. Os filhos parecem acreditar nisso também.

Jean Twenge, pesquisador da Universidade Estadual de San Diego, EUA, analisou a incidência de transtorno de personalidade narcisista (TPN) em mais de 16 mil estudantes americanos do ensino médio durante 1979 e 2006. O pesquisador indica que a incidência desse transtorno começou a aumentar a partir de meados da década de 1980 (passou de 1 em cada 7 para 1 em cada 4 adolescentes com traços de TPN).

Alguns traços do narcisismo – como o autoritarismo e o sentimento de autossuficiência, por exemplo – podem até ser saudáveis, diz Robert Horton, pesquisador da Faculdade Wabash de Indiana, EUA. Mas essa espécie de “projeção constante da própria imagem” pode levar a problemas nos relacionamentos interpessoais, ele completa. Os narcisistas tendem a agir de forma mais defensiva, não perdoam facilmente, têm problemas com os relacionamentos afetivos e na manutenção de amizades. Na opinião de Twenge, isso pode ser um sério obstáculo para a felicidade.

“O narcisismo está relacionado a um impacto negativo para o indivíduo. Mas ao que parece, nossa sociedade aceita esse transtorno cada vez mais facilmente”, diz Twenge, cuja pesquisa foi publicada no periódico Journal of Personality.

Drew Pinsky e Mark Young, pesquisadores da Universidade da Califórnia, chegaram a medir o nível de narcisismo em personalidades públicas americanas (especialmente as estrelas de TV), e apontam que esse modelo de comportamento pode ser um dos responsáveis pelo aumento da incidência desse tipo de transtorno. A pesquisa feita pelos dois foi publicada em 2006 no periódico Journal of Research in Personality.

Nem todos concordam que o narcisismo vem aumentado

Kali Trzesniewski, pesquisadora da Universidade de Western Ontario, não está convencida de que o narcisismo vem realmente aumentando a sua incidência. Seu estudo – publicado no periódico Psychological Science – coletou dados em âmbito nacional no Canadá e em escolas da Califórnia e mostrou que esses índices do transtorno se mantiveram estáveis nos últimos 30 anos. Ela diz que o que se observa é que o aumento dessa “projeção da própria imagem” é apenas reflexo da ampliação de possibilidades que a atual geração tem na hora de mostrar aos outros o que quer da vida.

“Recém-formados que estão entrando no mercado de trabalho têm muito mais oportunidades na hora de escolher o que fazer e, portanto, são mais seletivos na hora de fazer suas escolhas. Isso não necessariamente muda suas crenças”, diz o pesquisador.

Levine aponta que os pais é que são os reais responsáveis por esses problemas na saúde mental dos filhos, pois incutem nesses jovens o medo de falhar. “Eles fazem que os filhos antecipem preocupações, levando a obsessões pelas notas e por estudar na escola certa, pois sem isso, eles acreditam que os filhos não terão chances em um mundo cada vez mais competitivo.”

Além do perfeccionismo exagerado, cobrado pelos pais, esses adolescentes também têm baixa resistência à frustração, pois são superprotegidos desde cedo, aponta Levine. E o fato de os pais enfatizarem que é preciso alcançar um determinado objetivo também aumenta a incidência de depressão e ansiedade, além de ter relações com o abuso de álcool e outras drogas, diz um estudo feito por Luthar e publicado no periódico Current Directions in Psychological Science.

O que os pais devem fazer?

Levine e Kindlon recomendam que é necessário dar aos filhos responsabilidades nas atividades da casa e da família, como forma de fazê-los se envolver em serviços que exercitem o sentimento de comunidade, de fazer parte de um grupo. Diminuir o tempo na frente da TV e cuidar para que esses jovens tenham um bom aproveitamento da internet é outro ponto importante.

“Esse tipo de atitude ajuda os jovens a entender limites e valores que podem levar a um maior nível de satisfação. Os pais também devem deixar de lado a obsessão pelo perfeccionismo e sempre apoiar seus filhos nos estudos, mostrando a importância disso para sua formação como pessoa.”


Créditos: este material aparece originalmente em inglês como The price of affluence. Copyright © 2010 da American Psychological Association (APA). Traduzido e reproduzido com permissão. A APA não é responsável pela exatidão desta tradução. Esta tradução não pode ser reproduzida ou, ainda, distribuída sem permissão prévia por escrito da APA.

Fonte: UOL

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