domingo, 7 de novembro de 2010

Um rabino negro na zona leste


Mordechai Moré ergue sinagoga em São Mateus e quer unir judeus nordestinos

Ocimara Balmant
O comerciante negro e alto é mais um morador da periferia de São Paulo. Passaria despercebido pelas ruas de São Mateus, na zona leste. Mas é impossível não chamar a atenção com aquela quipá na cabeça, acessório típico em bairros como Higienópolis e Bom Retiro, mas completamente inusitado por ali.

"As pessoas estão acostumadas a ver judeus brancos de olhos azuis. Por isso, se assustam comigo", diz Mordechai Moré, 43, o nome hebraico do homem que nasceu e cresceu Marcos Moreira, foi pastor evangélico e há dez anos se assumiu judeu. Desde então, aprendeu hebraico sozinho, reza três vezes ao dia, cumpre o shabat (a guarda do sábado), descobriu outras famílias judias no bairro e comanda por lá a construção de uma sinagoga.

Dentro de casa, aboliu qualquer alimento "impuro" do cardápio da família. A mulher, Hadassa, também judia, só cozinha comida kasher. Ele sonha com um colégio judaico na região, mas, enquanto não consegue, improvisa.

Só conversa com os quatro filhos em hebraico, para aprenderem a língua, e ensinou às crianças uma desculpa para recusar o lanche da escola pública onde estudam. "Falei para dizerem que são alérgicas. Era o que minha mãe me dizia quando eu era criança", lembra ele.

Ser judeu não foi uma decisão tomada ao acaso. Mordechai é descendente dos "forçados", os judeus que foram obrigados a se converter ao cristianismo na época da Inquisição e que chegaram ao Nordeste como imigrantes no século 16.

Muitos deles renunciaram à religião, mas não à tradição. Caso dos avós e dos pais de Mordechai.

Sua infância foi permeada de costumes judaicos: mais velho de quatro irmãos, ele foi circuncidado, nunca comemorou o Natal nem comeu carne de porco. "Minha mãe até cantava música em ladino, uma mistura de espanhol com hebraico. Eram coisas que eu não entendia, mas eles desconversavam, diziam que era tradição dos antigos." A revelação foi feita a contragosto.

"Quando eu tinha 17 anos, resolvi que ia virar Hare Krishna. Então, minha mãe não se aguentou e contou: 'A gente é descendente de judeu. É melhor ser judeu que Hare Krishna'". Na época, Mordechai optou por mesclar as duas religiões. "Achei que devia pregar Jesus para os judeus. Fiz isso um tempo, mas, de repente, percebi que o que eu queria dar para eles não era mais o que eu queria para mim. Decidi fazer o retorno."

O preço foi alto: a primeira mulher o deixou, os pais cristãos demoraram a aceitar a decisão e a comunidade de São Mateus o discriminou. "Ser judeu na periferia é muito difícil. Pela crendice popular, judeu não acredita em Deus. Já recebi paulada na cabeça e fui expulso de uma casa que aluguei quando o dono descobriu que eu era judeu."

Hoje, uma década depois, a quipá de Mordechai já não atrai tantos desafetos. Pelo contrário, o promoveu. Por ali, todos o tratam como rabino. "Para quem não é judeu, todo mundo que usa quipá é rabino. Eu não me autodenomino, mas a comunidade precisava de um líder." Ele se refere às cerca de 20 famílias de São Mateus que se reúnem na sinagoga Beit Israel, criada por ele com um único objetivo: "Aqui no bairro há muitos nordestinos filhos dos 'forçados'. Não quero converter ninguém. Só quero ajudar a comunidade a descobrir a ascendência e se sentir à vontade para professar."

Ainda neste mês, deve ser inaugurado o novo prédio da sinagoga. A construção azul clara, em fase final de reforma, fica na avenida Engenho Novo, um endereço recém-asfaltado. "Construo com dinheiro do bolso, mas às vezes fica difícil. Não temos um Abravanel", brinca o rabino, em referência a Silvio Santos. Apesar da quipá, da Torá e de ele sobreviver da venda de pedras preciosas, não tem sido fácil se fazer respeitar entre os ortodoxos tradicionais da cidade. "Fiz exame de DNA e consegui mapear minha árvore genealógica. Não importa se me ignoram. Não quero morar no Bom Retiro nem em Higienópolis. Se o Todo Poderoso, o Eterno, nos reconhecer, já está bom demais."

"Ser judeu na periferia é difícil. O povo acha que judeu não acredita em Deus. Já levei paulada na cabeça"
MORDECHAI MORÉ

"Quando eu tinha 17 anos, queria virar Hare Krishna. Minha mãe contou: 'A gente é descendente de judeu'"
MORDECHAI MORÉ

Fonte: Revista São Paulo

2 comentários:

Anônimo disse...

Pelo que estudei e conheço sobre Religiosidade, o Povo Judeu é o único que acredita em D'us. A maioria das outras, crê em Jesus,
Maomé, entre outros.
Meus profundos cumprimentos aos
senhor Rabino que, além do preconceitos, só faz o bem aos outros.
Atenciosamente,
Asta Gatz

Anônimo disse...

Como o rabino sabe grande parte dos nordestinos sao descendentes de judeus os mesmos que praticamente fundaran New york ( EUA ), alguns nao chegaram a trocar o sobrenome totalmente,eu mesmo tenho um amigo que a mae e cearence, com sobrenome Solon ( salomao ),
Seria interessante se pudesse informar isso aos descendes que estao espalhados por todo Brasil, e que tambem fossem reconhecidos pela colonia judaica brasileira ,

Shalon

Paulo