quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Um fenômeno da fé pelo rádio

A jornalista americana Krista Tippett faz sucesso nos Estados Unidos com um programa que discute a religiosidade sem se ligar a igrejas

Humberto Maia Junior - Época

SUCESSO
Krista Tippett, cujo programa de rádio é transmitido por 240 emissoras nos EUA. Seus críticos dizem que ela é “sem sal”
 
Todo domingo de manhã, cerca de 600 mil americanos ligam o rádio para ouvir uma mulher de 49 anos, voz suave e acolhedora, entrevistar cientistas, filósofos e pesquisadores de diversas áreas sobre espiritualidade. Ouvem uma conversa informal. Não há debates acalorados, muito menos pregações com tom messiânico ou fundamentalista – comuns em setores religiosos da mídia americana. O que ela tenta é buscar respostas para questões como: o que significa sermos humanos? O que é o amor? Qual é nosso papel no mundo? Como a religiosidade e a espiritualidade podem nos ajudar no dia a dia? O programa se chama Being (algo como Existindo) e é transmitido por 240 emissoras, além do podcast na internet, que registra 1,3 milhão de downloads por mês. A apresentadora se chama Krista Tippett e se torna cada vez mais popular no país. Recentemente, o jornal The New York Times a classificou como um fenômeno. “Religião é um assunto delicado, que nos permite entrar no cerne da identidade de uma pessoa”, diz Krista.

Apesar da popularidade, no mês passado Krista entrou em polêmica por causa da mudança do nome do programa, que surgiu como Speaking of faith (Falando de fé). A troca de nome desagradou aos fãs. Em seu blog, ela diz que a mudança foi feita para atrair pessoas que associam a palavra “fé” à filiação a alguma igreja.

Porque ela evita temas extremistas e polêmicos, alguns consideram Krista “chatinha” e um tanto quanto “sem sal”. Krista diz não se preocupar. “O que a religião faz, e nossa cultura não, é nos convidar a procurar significado em momentos de vulnerabilidade e incerteza. Isso não é uma experiência ordinária. Precisamos levá-la a sério”, afirma. Ela diz que a ciência não pode ser detentora de toda a verdade. “Nós temos uma noção muito estreita e prejudicial sobre conhecimento e verdade. Nós sabemos, e os cientistas sabem, que há verdades que só podem ser expressas por meio de poesia ou arte. As pessoas estão acordando para o fato de que ser humano é mais do que fato e conhecimento, é experiência.”

Krista cresceu em Oklahoma, região central dos Estados Unidos. Seu avô era pastor da Igreja Batista, e ela fazia parte do coral da congregação. Era uma típica caipira americana quando entrou na faculdade de história da Universidade Brown, no começo dos anos 80. No meio acadêmico, diz ter se surpreendido ao encontrar pessoas para quem a religião pouco ou nada significava. Em 1983, conseguiu uma bolsa da Fulbright, uma fundação que financia intercâmbios estudantis, para estudar a Guerra Fria em Bonn (então capital da Alemanha Ocidental, capitalista). Trabalhou como correspondente de jornais e revistas americanos até se tornar assistente do embaixador americano no país. Respirando política, afastou-se completamente de sentimentos religiosos. “Cresci numa cultura conservadora. Mais tarde, tornei-me muito politizada e passei a acreditar nessa forma de ver o mundo. Quanto mais me aprofundava nesses valores, menos via relevância na religião.”

Um ano antes da queda do Muro de Berlim, abandonou tudo e se mudou para a Ilha de Maiorca, na Espanha. Diz que queria “meditar sobre a vida” e que sentiu reconforto rezando. Em paz com a religião, voltou para os EUA e matriculou-se no mestrado em estudos religiosos da Universidade Yale. Concluiu os estudos em 1994. Passou a frequentar a Igreja Episcopal. Nessa época, foi contratada por monges beneditinos da cidade de St. John, em Minnesota, para fazer entrevistas com pessoas de várias crenças. Daí surgiu a ideia de um programa que conversasse sobre religiões em geral. “Via um buraco negro na cobertura de assuntos religiosos.”

Krista se recusa a entrevistar os “novos ateístas”, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens
 
No início, só encontrou ceticismo entre os executivos das rádios. Como fazer um programa ecumênico sobre um assunto tão segmentado? Naquela época, a maior parte dos programas religiosos, no rádio e na TV americanos, era controlada por pastores como o conservador Jerry Falwell e o ativista racial Jesse Jackson – que, ao contrário de Krista, eram bem claros em suas posições, consideradas por ela extremistas.
Em 1999, Krista conseguiu US$ 500 para produzir seu primeiro programa de rádio, que não tinha periodicidade. Até que, no dia 11 de setembro de 2001, terroristas islâmicos derrubaram o World Trade Center. Sem entender muito bem os motivos dos integrantes da Al-Qaeda, o público americano passou a se interessar mais por religião. Speaking of faith entrou na onda e ganhou periodicidade mensal. Mais dois anos e se tornaria semanal. Em 2008, o programa (ainda com o nome Speaking of faith) ganhou o Prêmio Peabody, um dos mais importantes da mídia americana. Hoje tem orçamento anual de US$ 1,3 milhão e outras premiações. Os ganhadores do Nobel da Paz Elie Wiesel, Wangari Maathai e Desmond Tutu foram alguns dos entrevistados, que falam sobre temas variados, como a disputa entre ciência e religião.
Embalada pelo sucesso, ela publicou dois livros. O primeiro levou o nome original do programa. O segundo, lançado no começo do ano, Einstein’s God – Conversations about science and the human spirit (O Deus de Einstein – Conversas sobre a ciência e o espírito humano), entrou para a lista de best-sellers do The New York Times. Quando lhe perguntam se seu programa é um “ministério”, ela responde: “Se for, é um ministério de ouvir, não de falar”.


Papo rápido > Krista Tippett
A jornalista diz que rejeita entrevistar ateus em seu programa de rádio
A senhora acredita que as pessoas estão se tornando mais ligadas à espiritualidade?
Krista Tippett – Vivemos uma época em que as coisas são muito fluidas. Isso nos leva a nos questionar “o que significa sermos humanos”. Estamos redescobrindo a espiritualidade e a religiosidade. Não como uma reação ou fuga da complexidade de nossos tempos, mas como uma forma de lidarmos melhor com essas questões.

A senhora entrevistaria ateus famosos, como Richard Dawkins, Sam Harris ou Christopher Hitchens?
Krista – Nunca os entrevistei. O que tento fazer em meu programa é me afastar dos extremistas. Nunca entrevistei essas “novas vozes ateístas” nem religiosos fanáticos. Prefiro pessoas interessadas em conversar até com quem discorda deles. Hitchens, da mesma maneira de Jerry Falwell (pastor fundamentalista, morto há três anos), se limita a atacar o que ele não aceita e as pessoas com quem ele não concorda. Não apresenta algo construtivo.

Mas uma pessoa não pode ter moral e ética mesmo não acreditando em Deus?
Krista – Sim. Muitas pessoas que não são religiosas e levam uma vida ética podem fazer isso com muito mais sinceridade do que uma pessoa que segue a moral porque acha que, fazendo isso, está seguindo uma ordem de Deus.

O que a senhora aprendeu a partir das entrevistas?
Krista – Eu aprendi a me sentir mais à vontade com os mistérios e respeitá-los. Uma das coisas mais bonitas que vi nas melhores pessoas que entrevistei é sua capacidade de terem força e fraqueza, ou vulnerabilidade e poder, ao mesmo tempo

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