domingo, 28 de novembro de 2010

A morte de Stalin

Enquanto o ditador soviético agonizava em seu leito de morte, em 1953, seus asseclas travaram uma disputa feroz pelo poder. Conheça os bastidores da sucessão do czar vermelho

por Alain Frerejean

Nos últimos anos de vida, Stalin só ia ao Kremlin à tarde e à noite. Depois de assinar a correspondência e receber visitantes, recolhia-se em sua datcha de Kuntsevo, em plena floresta, a 15 minutos de carro do Kremlin. Ao redor da vila, protegido por cercas entre as quais circulavam guardas com cães, ele gostava de caminhar e respirar o cheiro dos pinheiros. Incapaz de suportar a solidão depois do suicídio de sua segunda esposa, costumava convidar três ou quatro colaboradores para um jantar interminável e copiosamente regado.

O cardiologista Vinogradov, que tratava dele havia 15 anos, recomendou-lhe cuidar da saúde e parar de fumar. Stalin não gostava de receber ordens; tinha medo da morte e, para evitar que o envenenassem, recusava-se a tomar remédio. Eternamente paranoico, encarregou Ryumin, um dos agentes do serviço secreto, de averiguar se os médicos que tratavam dos principais dignitários do partido não haviam fomentado um complô.

No dia 13 de janeiro de 1953, o jornal Pravda denunciou os "assassinos de jaleco branco", professores de medicina, na maioria judeus, suspeitos de atuar sob as ordens do serviço secreto inglês ou americano e de uma organização sionista, a Junta, que, segundo os boatos, se infiltrara nos mais altos escalões do partido.

Não passava um dia sem que os jornais denunciassem novos escândalos, novas prisões. Cochichava-se que jovens oficiais não saíam vivos de certos hospitais. Aparentemente, as enfermeiras sabiam que ocorriam coisas estranhas, mas não se atreviam a dizer nada por medo dos médicos judeus. O processo dos "assassinos de jaleco branco" estava previsto para 5 a 7 de março. Quanto à sentença, não havia a menor dúvida, já se haviam tomado providências para que as execuções ocorressem em 11 e 12 de março.

Por um motivo ou outro, todos se sentiam ameaçados. Viatcheslav Molotov, por ser casado com uma judia. Nikita Kruschev, por causa do partido na Ucrânia. Anastas Mikoyan, por conta da corrupção. Stalin não poupava os colaboradores mais próximos. Demitiu seu fiel secretário Proskrebychev depois de mandar fuzilar sua esposa judia. Mandou prender o chefe de sua guarda pessoal, o general Nikolai Vlassik, suspeito de ter "favorecido os médicos envenenadores". Prometeu poupar a vida de seu médico Vinogradov, "desde que ele reconhecesse francamente seus crimes e delatasse todos os cúmplices", mas só conseguiu arrancar-lhe uma confissão depois de vários dias seguidos de espancamento.
 
 O caixão do ditador é carregado por seus principais colaboradores no dia 09 de março de 1953

Às 11 horas da noite de 28 de fevereiro de 1953, quatro habitués chegaram à datcha: Gueorgui Malenkov, Nikolai Bulganin, Kruschev e Beria. Eles conversaram e brindaram com o chefe, mas não se sentiram à vontade. Principalmente Beria, que tinha ligação com muitos envolvidos em uma pretensa conspiração mingreliana (grupo étnico da Geórgia).
Às 4 horas da madrugada, Stalin foi se deitar. Os quatro convidados se despediram. Dias antes, Beria tinha conseguido afastar o guarda-costas mais chegado a Stalin, Alexei Rybin, nomeando-o chefe da guarda do Teatro Bolshoi, e substituí-lo por um homem de sua confiança, Krustalev.

Em 1º de março, Stalin, que costumava acordar às 11 horas, não deu sinal de vida. Mas ninguém estava autorizado a entrar em seus aposentos sem ordem expressa dele. O tempo passou. Meio-dia. Duas horas. Seis horas da tarde. Dez horas da noite. Os empregados e os guarda-costas já estavam preocupados. No entanto, havia telefones instalados em todos os quartos, em todos os salões, em todos os banheiros, para que Stalin pudesse pedir o chá, a correspondência, os jornais. Mas não havia utilizado nenhum. Essa rede telefônica era complementada por um sistema de alarme. Os cômodos eram equipados de sensores escondidos nas cortinas e nas portas para que os guardas monitorassem todas as idas e vindas. Ora, nenhum deles havia detectado o menor movimento.

Às 11 horas da noite, depois de muita hesitação, Starostin, o chefe da guarda pessoal dadatcha, tomou coragem. Usando como pretexto a chegada da correspondência do Comitê Central, ousou bater na porta do chefe. Nenhuma resposta. Ele entrou e deu com Stalin caído no chão, de pijama, os olhos arregalados, incapaz de articular uma palavra. Starostin pediu socorro.

Na datcha, não havia médico nem enfermeira. Em vez de chamar um médico, como queriam os empregados, ele achou mais sensato avisar Ignatiev, seu superior hierárquico. Este, por sua vez – e em defesa da própria pele – tomou uma sábia precaução. Em vez de alertar Beria, avisou Kruschev e Bulganin e os levou à casa da guarda da datcha, onde Starostin expôs a situação. Ignatiev os fez jurar guardar segredo absoluto.
 
 O líder soviético com a filha Svetlana, em 1935. Ela registrou em suas memórias que presenciou "coisas estranhas" nos dias que se seguiram à morte do pai

À meia-noite, eles se foram discretamente, sem ter entrado nos aposentos de Stalin. Graças a essa antecipação com relação a Beria, Bulganin, ministro da Defesa, tomou algumas providências: reservadamente, mandou deslocar para as proximidades do Kremlin alguns batalhões em que tinha plena confiança, e Kruschev deu ordem de suspender imediatamente a campanha antissemita na imprensa, o que lhe valeria favores de Molotov.

Só então Ignatiev pôde prevenir Malenkov. Este saiu à procura de Beria, seu mentor, e acabou tirando-o da cama às 3 horas da madrugada. Beria e Malenkov foram levados ao quarto de Stalin. Receando acordar o chefe, Malenkov tirou as botas novas, que rangiam no assoalho. Diante do corpo inerte de Stalin, Beria se voltou para os guarda-costas: "Lozgachev, por que esse pânico? Não vê que o camarada Stalin está dormindo profundamente? Não o perturbe e pare de nos alarmar".

Então Beria se apressou a ir ao Kremlin, ao gabinete de Stalin, decerto para dar sumiço em alguns papéis comprometedores. Somente às 7 horas da manhã telefonou para o ministro da Saúde, pedindo-lhe médicos. Duas horas depois, portanto, às 9 da manhã de 2 de março, Beria e Malenkov retornaram à datcha, seguidos por Bulganin e Kruschev, depois por Tretyakov, acompanhado de quatro médicos. Para evitar inconvenientes quando se divulgasse o boletim médico, Beria lhes contou que Stalin estava em seu escritório, na véspera, e acabava de sofrer um ataque. Na verdade, ele ficara 14 horas sem socorro.

 Durante o XX Congresso do Partido Comunista, Kruschev anuncia os crimes de seu antecessor

Os médicos diagnosticaram hemorragia cerebral. Se tivessem sido chamados na véspera, certamente poderiam prolongar a agonia em alguns dias, mas, sem dúvida, não tinham condições de salvar o doente. Pediram para ver o prontuário médico. Nada encontraram nem na datcha nem no Kremlin. Aplicaram-lhe ventosas, injeções, tiraram eletrocardiogramas, radiografam-lhe os pulmões e mandaram buscar um marca-passo.

Depois de muito injuriar os médicos, Beria, no auge da excitação, pôs-se a insultar Stalin, mas este abriu o olho e deu a impressão de apontar o dedo para ele. Aterrorizado, Beria caiu de joelhos, pegou a mão do chefe e a beijou. Pouco depois, o moribundo vomitou sangue, como nos casos de envenenamento. Krustalev, o único que ficou com Stalin na manhã do dia 1º de março, o teria intoxicado durante o sono com um veneno cuja receita seu chefe, Beria, conhecia?
Os quatro dignitários deixaram o enfermo com os médicos e voltaram para o Kremlin. Tinham muito que fazer: discutir a melhor maneira de dividir o poder entre si. O clã Bulganin-Kruschev acabou se entendendo com o clã Beria-Malenkov. Malenkov, que Beria imaginava poder manobrar a seu bel-prazer, seria presidente do Conselho dos Ministros, secundado por quatro vice-presidentes: Molotov, Bulganin, Kaganovich e Beria, que aumentaria ainda mais sua autoridade sobre a polícia. Kruschev seria o secretário do partido.
Só restava fazer com que o Comitê Central, o Conselho de Ministros e o presidium do Soviete Supremo avalizassem a nova organização. Eles tardaram dois dias a convocar e reunir todos: nada menos que 300 pessoas. Tudo se resolveu no dia 5 de março. A sucessão de Stalin foi aprovada unanimemente, sem debate.

 Uma nação de órfãos: multidão se reúne na Praça Vermelha de Moscou para se despedir do "Pai dos Povos".

Malenkov, Beria Bulganin, Kruschev, dessa vez acompanhados de Molotov e Vorochilov, puderam voltar à cabeceira do agonizante. Na datcha, encontraram, além dos médicos, Svetlana e Vassili, os filhos de Stalin, assim como Istomina, sua camareira, que parecia ser a mais abalada. O grande homem acabava de expirar. Beria conseguiu dissimular a alegria durante alguns minutos.

No dia 6 de março, um boletim oficial anunciou o falecimento de Stalin, atribuído a uma hemorragia cerebral causada pela hipertensão, que provocou paralisia, a perda da fala e da consciência. Um segundo ataque teria afetado o coração e os pulmões. Curiosamente, o boletim omitiu o vômito de sangue.

Entre o povo, alguns reagiram com alívio, outros, com tristeza. Eles se sentiram órfãos. Stalin, seu ídolo, os havia abandonado, fracos e sem defesa, à mercê do mundo capitalista e hostil que os cercava. Sua morte arriscava levar a Rússia para o abismo da anarquia e do caos.
Em 9 de março, na praça Vermelha, uma multidão imensa desfilou para saudar o caixão aberto em que repousava o senhor. Na multidão, várias centenas de homens e, sobretudo, de mulheres morreram sufocados ou pisoteados, como no dia da coroação do czar Nicolau II. Nesse mesmo dia, Polina Molotov foi posta em liberdade e, logo depois, todos os médicos envolvidos no chamado complô “do jaleco branco”, os quais seriam milagrosamente reabilitados.

O petit comité do czar vermelho (em sentido horário): Lavrenti Beria, Nikolai Bulganin, Gueorgui Malenkov e Nikita Kruschev

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