domingo, 21 de novembro de 2010

Jornalista analisa operações militares secretas de Clinton

Ex-presidente americano usou operações para se aproximar dos militares

Carlos Eduardo Lins da Silva
Bill Clinton foi um presidente a quem os militares americanos tiveram dificuldade para respeitar como seu comandante-em-chefe.

Ao contrário da maioria de seus predecessores, ele não só jamais havia servido às Forças Armadas como fez oposição cerrada à sua ação num conflito extremamente sensível, o do Vietnã.

Havia suspeitas fortes de que Clinton havia usado de estratagemas para escapar da convocação quando estava em idade de fazer o serviço militar, então obrigatório, na década de 1960.

Além disso, no início de sua gestão, mexeu numa casa de marimbondos ao tentar mudar a proibição a homossexuais na carreira militar.

Ao longo dos seus oito anos na Casa Branca, Clinton e os militares acharam um jeito de conviver em paz.
Ele até conseguiu o respeito entre muitos deles, embora as primeiras ações de seu mandato, como a missão na Somália, tenham terminado de modo humilhante.

Esse relacionamento merece um estudo mais aprofundado. É mais ou menos esta a proposta do jornalista Richard Sale em "As Guerras Secretas de Clinton", que ganhou uma edição brasileira.

Uma de suas teses centrais é que o presidente ganhou o respeito de seus subordinados em uniforme pela maneira como se engajou em operações não públicas, que tinham como objetivo máxima eficiência com mínimo custo.

O resultado de seu esforço não é animador. O autor toma partido a favor de Clinton e de fórmulas ilegais de intervenção dos EUA em assuntos de outros países.

LEITURA
Como os temas de que trata são sensíveis, a maioria absoluta de suas fontes falou com ele sob a condição de não ter identidade revelada.

Sale é um jornalista respeitável, mas não incluído no time dos melhores do país. Não há razão para desconfiar de suas apurações. Mas é esquisito ler relatos detalhados de reuniões secretas sem que o leitor saiba quem foi que deu as informações.

A linguagem, engajada, ufanista e gongórica, amplia mais as dúvidas do leitor sobre a fidelidade das afirmações. Por exemplo, o ex-vice-presidente Al Gore é classificado como "sólido, imponente, ágil como um falcão".

A tradução para o português, muitas vezes claudicante ("chefe do Estado-Maior das Forças Armadas" vira presidente da Junta de Chefes das Forças Armadas"), atrapalha a fluidez e a compreensão do texto.
A falta de notas que contextualizem referências a locais, pessoas e incidentes que o leitor americano certamente conhece bem atravanca o brasileiro médio.

O livro é detalhista. Explora a maneira como Clinton atuou nas crises nos Bálcãs e em ações contra o Iraque e os terroristas da Al Qaeda.

Traz informações (caso se resolva crer nelas) interessantes para entender melhor a política externa e militar da gestão Clinton. Mas só para quem realmente se especializa nos assuntos americanos.

AS GUERRAS DE CLINTON
AUTOR Richard Sale
EDITORA Nossa Cultura
QUANTO R$ 48,50


Fonte: Folha de S. Paulo

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