quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Unidos pela igreja da natividade

Católicos, gregos ortodoxos e armênios ortodoxos firmam acordo para reformar o local onde teria nascido Jesus


João Loes - Isto É

HISTÓRIA

Cerca de 1,3 milhão de pessoas  visitam a Igreja da Natividade por ano

Reformar uma casa não é fácil. Agora imagine reformar uma casa que está sem manutenção há mais de 500 anos, cuja propriedade é de três donos que não se entendem e instalada em uma região de difícil acesso. É mais ou menos essa a situação da Igreja da Natividade, construída em 327 d.C. na cidade de Belém – hoje território palestino dentro de Israel – para marcar o lugar onde teria nascido Jesus. Erguida inicialmente como uma pequena basílica, ela resistiu a ataques e ganhou anexos nos seus 1.683 anos de história. Nos últimos 178, porém, viveu alguns de seus piores momentos. Administrada por uma junta de católicos apostólicos romanos, gregos ortodoxos e armênios ortodoxos, ficou esquecida em meio às disputas políticas e religiosas de seus proprietários. Abandonada, conviveu com água de chuva escorrendo por suas paredes e umidade interna intensa o suficiente para destruir mosaicos e entalhes em pedra. Mas, no mês passado, o bom-senso finalmente falou mais alto e um acordo para reformar a construção foi firmado pelos representantes das três denominações religiosas que a administram.

 


“Essa basílica virou símbolo da nossa incapacidade de dialogar”, disse o franciscano Pierbattista Pizzaballa, que representa os católicos, quando o acordo foi divulgado. “Espero que agora o espaço se transforme em símbolo da nossa capacidade de colaborar.” Além de Pizzaballa, o patriarca grego ortodoxo Theophilos III, o patriarca armênio Torkom II Manoogian, e o primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, marcaram presença no anúncio. Entre eles, ficou estabelecido que o teto, sem reforma há 575 anos, era a parte que mais precisava de atenção. Feito em madeira e selado com placas de chumbo, ele apresenta rombos de até 20 centímetros de diâmetro. Para complicar ainda mais, foi mal projetado e armazena a umidade interna da construção. Em dias mais frios, essa umidade costuma se condensar e pingar sobre a estrutura e seus visitantes, que não são poucos – estima-se que cerca de 1,3 milhão de pessoas visitem o templo anualmente.


Mas não é de hoje que o teto da Igreja da Natividade representa um dos grandes problemas da construção. Já em 1435 d.C., o grupo de franciscanos responsável pela administração de parte do espaço mandou requerimento de reforma a Roma. Na época, o templo já tinha mais de mil anos de história e havia sobrevivido a invasões e incêndios. Rapidamente, fiéis e simpatizantes da causa se organizaram para enviar toras de madeira a fim de viabilizar o projeto. Todos sempre se mostraram dispostos a ajudar a igreja e a razão para isso é simples. “Através dos séculos, relatos confirmam que aquele é o lugar original do nascimento de Jesus Cristo”, afirma frei Ivo Müller, franciscano e representante da Custódia da Terra Santa no Brasil.

DESTRUIÇÃO

Nem para a visita do papa João Paulo II (acima), em 2000, houve acordo para reformar a Igreja da Natividade

É essa característica da Igreja da Natividade que tanto valoriza a construção quanto semeia boa parte das desavenças entre gregos ortodoxos, armênios ortodoxos e católicos. “A história da Igreja da Natividade se mistura com a história dos armênios e da igreja ortodoxa armênia”, reforça dom Datev Karibian, arcebispo diocesano e primaz da Igreja Armênia Ortodoxa no Brasil. “E a parte mais importante da construção, onde está a estrela que marca o local de nascimento de Jesus, é administrada pelos armênios”, explica. Ali, cultos ortodoxos armênios são realizados diariamente. “Mas alguns dos direitos das três fés dentro da Igreja são discutíveis, então sempre surgem obstáculos quando coisas como uma reforma, por exemplo, precisam ser feitas.”

Curiosamente, o que garante relevância religiosa ao templo não tem respaldo histórico ou arqueológico. “Não temos nenhuma base para falar que foi naquele local que Jesus nasceu”, lembra o arqueólogo e doutor em teologia bíblica Rodrigo da Silva. “Essa questão depende da fé, pois só temos registros históricos da importância do lugar já como basílica a partir do século IV”, afirma. Nem por isso Silva faz pouco da construção. Como arqueólogo, ele a vê como valiosíssimo objeto a ser preservado e estudado. “Mas, mesmo com o acordo, vai ser uma obra difícil”, diz. Materiais de construção e especialistas em restauro terão de transitar diariamente por zonas politicamente instáveis para viabilizar o trabalho. Como se vê, o acordo entre as três religiões pode ter sido a parte mais fácil da intervenção.

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