quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Uma sentença para a Europa


A cultura não existe para respeitar nossas certezas ou crenças, mas para as testar, provocar e insultar


ACOMPANHO COM interesse o julgamento de Geert Wilders. A sentença, quando surgir, será uma espécie de radar político, capaz de apontar o caminho futuro para a Holanda e para a Europa. Duas hipóteses: será a sobrevivência ou a morte.

Explico: Geert Wilders é deputado holandês, líder do radical Partido pela Liberdade e um inimigo feroz do Islã e do islamismo fanático, duas entidades que, aos seus olhos, são indistinguíveis.

Depois da morte de Theo Van Gogh, diretor holandês assassinado por um muçulmano nas ruas de Amsterdã por causa do filme "Submissão" (obra em que Van Gogh pretendia denunciar a intolerância do Islã sobre as mulheres), Geert Wilders surgiu em cena, com sua cabeleira ridícula e ridiculamente loira, transformando a religião islâmica no novo Belzebu ocidental: o Islã é uma forma de nazismo, disse, e o Corão é o "Mein Kampf" dos terroristas, acrescentou. Como reagir?

Com debate ou indiferença. O debate parece desnecessário: pretender convencer Geert Wilders das diferenças fundamentais entre uma das maiores religiões do mundo e um movimento racista e genocida da Alemanha da década de 1930 é tempo perdido.

Melhor optar pela indiferença -no fundo, optar pela "tolerância", que não deve ser confundida com "respeito". A "tolerância" é um mero encolher de ombros perante a opinião de terceiros. Foi esse encolher de ombros que permitiu à Holanda ser porto de chegada e de abrigo para pensadores, artistas, "hereges" vários ao longo da sua história. Foi essa "tolerância" que definiu a própria modernidade europeia, separando as esferas seculares e religiosas, e instigando séculos de arte e reflexão contínuos.

A justiça holandesa, pressionada por lobbies islâmicos tão radicais quanto Wilders, não entendeu as coisas da mesma forma; levou o deputado a julgamento por incitamento ao ódio. Uns dias atrás, o advogado de Wilders conseguiu anular a presente constituição de juízes, alegando parcialidade de um dos membros; mas o julgamento continuará em breve, com novos julgadores e com iguais acusações.

Confesso: não sou adepto de Wilders; a sua retórica, típica de um neandertal, não se distingue do ódio de skinheads a negros; ou de neonazis a judeus.

Mas uma condenação de Geert Wilders será o princípio do fim da Europa.

Começará por ser o princípio do fim da sua liberdade intelectual: a cultura europeia, das peças de Voltaire (que ofendem o Islã) aos filmes de Godard (que ofendem os católicos), sem esquecer os livros de Houellebecq (que ofendem toda a gente), é um longo cortejo de "heresias".

A cultura, ao contrário do que pensam as patrulhas analfabetas, não existe para respeitar as nossas certezas ou crenças; a cultura existe para as testar, provocar, até insultar -um ringue onde a liberdade de expressão é o único oxigênio permitido.

Sob o novo prisma de uma condenação a Wilders, muitas das obras que enriquecem esse cortejo poderão ser rapidamente banidas da paisagem cultural comum.

Condenar Wilders, e a estupidez das suas palavras, é permitir por via judicial uma "islamização" da cultura europeia, ou seja, a imposição de um silêncio digno do Talibã.

Mas uma condenação a Wilders não será apenas uma morte cultural; será também a morte política de um continente.

Fato: nos últimos anos, a Europa tem testemunhado o crescimento da extrema-direita -na Holanda, na Dinamarca, na Suécia, na Hungria. Mas é um crescimento marginal, que só raramente influencia a governação ou mesmo a composição parlamentar majoritária.

Condenar Wilders será a justificativa final para que a Europa regresse às trincheiras do nacionalismo xenófobo. Um nacionalismo que, reforçado pela crise econômica, rapidamente encontrará no Outro (no estrangeiro, no imigrante e, sobretudo, no muçulmano) uma ameaça e um bode expiatório.

Se a crítica ao Islã se transforma em crime punível por lei, a extrema-direita terá o caminho livre para fazer da intolerância uma virtude; e do discurso radicalmente anti-islâmico uma bandeira coletiva.

Num tribunal da Holanda, o futuro da Europa aguarda a sua sentença. A história mostra que trágicas mudanças começam com pequenos acasos.

Fonte: Folha de S. Paulo