segunda-feira, 11 de outubro de 2010

SP dá 92 licenças por dia para docente com problema emocional

De janeiro a julho, Estado teve 19.500 afastamentos de professores com depressão e estresse

Número corresponde a 70% do que foi dado em todo o ano passado; problema leva docentes a "explodirem" em sala

Talita Bedinelli
Leonor, 58, professora do 3º ano do fundamental, passou a ter crises nervosas durante as aulas. Várias vezes gritou com os alunos e chorou em plena sala. Ficava tão nervosa que arrancava os cílios com as próprias mãos e mordia a boca até sangrar.

Ela procurou ajuda médica e hoje está de licença.

Casos como o dela são comuns entre professores.

Recentemente, dois docentes viraram notícia por ataques de fúria na sala de aula: um, de Caraguatatuba (litoral de SP), gritou e xingou alunos e danificou cadeiras da escola. Outro, do Espírito Santo, jogou um notebook durante um debate com estudantes de jornalismo.

Relatos de professores à Folha mostram que a bagunça da sala, somada às vezes a problemas pessoais, leva a reações como batidas de apagadores, gritos, xingamentos e até violência física. Atos que acabam afastando muitos docentes das aulas.

Só na rede estadual de SP, com 220 mil professores, foram dadas, de janeiro a julho, em média 92 licenças por dia a docentes com problemas emocionais. No período, foram 19.500 -o equivalente a 70% do concedido em todo o ano de 2009 por esses motivos, diz a Secretaria de Gestão Pública de SP.

O dado não corresponde ao número exato de professores, pois um mesmo docente pode ter renovado a licença durante este período.

"Batia com força o apagador nos armários. Tive muitas crises de choro durante as aulas, gritei com alunos", diz a professora Eliane, 64.

Ela está afastada por causa do estresse. "Eu não quero mais voltar para a sala de aula. Parecia que eu estava carregando uma bola daquelas de presidiário nos pés."

Daniela, 40, também não quer mais voltar. Ela tirou uma licença de 90 dias depois de "explodir" na sala de aula e gritar com os alunos. Foi socorrida por colegas.

Docente do 3º ano do fundamental (alunos com oito anos), diz ter sido ameaçada e agredida pelos estudantes.

As entrevistadas tiveram os nomes trocados.

Casos de "explosão" como esses podem ser sintomas de um distúrbio chamado histeria, segundo Wanderley Codo, do laboratório de psicologia do trabalho da Unb (Universidade de Brasília).

Desde 2000, o professor desenvolve pesquisas com professores e funcionários da área de educação e constatou que 20% dos professores sofrem de histeria.

"O trabalho do professor é um trabalho de cuidado, que exige a necessidade de um vínculo afetivo. Mas um professor que tem 400 alunos não tem como estabelecer esse tipo de vínculo."


Professora tem medo de voltar à escola
Felipe Caruso
Em 2009, a professora de história Nadia de Souza, 54, pediu transferência para a Escola Municipal Deodoro, na Glória, bairro onde mora, na região central do Rio.

O objetivo era ter um ano mais tranquilo e trabalhar perto de casa, evitando, assim, grandes deslocamentos.
Logo na primeira semana, ela diz que foi ameaçada de morte por um aluno. Na semana seguinte, outro estudante fez gestos obscenos.

Nadia diz ter sido ameaçada quatro vezes, atingida por urina e quase acertada por uma carteira jogada do terceiro andar da escola.

Com 23 anos de magistério, ela entrou em depressão e tinha medo de ir ao mercado ou de passar perto de escolas. "A vontade é de fechar os olhos e não abrir mais."

Há um ano, ela saiu de licença e passou seis meses sem sair de casa.

Foi diagnosticada com transtorno por Estresse Pós-traumático, que afeta vítimas de sequestro, estupro e sobreviventes de guerras.

DIREÇÃO
A diretora Therezinha Rosário, 54, afirma que a escola "é um paraíso perto das que temos por aí". Segundo ela, a professora nunca foi agredida nem fez reclamações formais à diretoria. Nadia diz que queixou-se à direção.

A professora continua de licença, toma medicamentos e não pretende voltar mais a dar aulas.

Fonte: Folha de S. Paulo

Nenhum comentário: