sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Por que o Brasil não ganha o Nobel?


Renato Pompeu - Diário de S. Paulo

Sempre que o Nobel é dado a um escritor latino-americano, como agora, se pergunta: por que um brasileiro não ganha esse prêmio? A resposta pode estar no regulamento da premiação: só podem concorrer escritores que tenham sido publicados em sueco e o Nobel só premia o "idealismo" de cada autor. A partir da Segunda Guerra, a Academia Sueca passou a premiar o que considera idealismo político. Ora, dos escritores brasileiros traduzidos para o sueco, talvez apenas Jorge Amado e Paulo Coelho tenham tido uma militância mais intensa, seja política, como o primeiro, seja mística, como o segundo, que sempre defendeu a liberdade de crença.

Mas, o que intriga não é que o escritor peruano tenha ganhado o Nobel , e sim por que agora. A explicação talvez seja a de que a Academia quis mandar um recado à opinião pública: os intelectuais europeus estão preocupados com o que se considera autoritarismo das esquerdas em ascensão em países latino-americanos. As medidas concretas na Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua, para não falar de Cuba, e até mesmo da Argentina, preocupam intelectuais que se identificam com o liberalismo que Vargas Llosa passou a defender.

Ele começou como jornalista esquerdista em Lima, a capital do Peru, mas foi no fim dos anos 1960 que publicou suas primeiras obras-primas, como "A Casa Verde", uma casa de prostituição na selva amazônica, e "Conversação na Catedral", sobre a corrupção e a devassidão dos setores dominantes durante a ditadura do general Manuel Odría. Neste último romance, Vargas Llosa se mostra simpático ao Partido Comunista do Peru; era, por exemplo, defensor da Revolução Cubana. Foi muito amigo, nessa época, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, até hoje amigo de Fidel Castro. Mas, em 1976, os dois brigaram, no Palácio das Belas-Artes, na Cidade do México, tendo Vargas Llosa dado um soco em García Márquez. Nenhum dos dois jamais revelou o motivo da briga, mas há boatos de que o desentendimento envolveu, seja as crescentes dúvidas do peruano sobre Cuba, seja uma aventura extraconjugal de um dos dois.

Mas, mais do que como o esquerdista da juventude ou do conservador da maturidade, Vargas Llosa será lembrado sempre como um grande escritor.

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