segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ex-obamistas se mostram frustrados

Presidente dos EUA tenta reconquistar eleitores que o ajudaram a chegar à Casa Branca e estão decepcionados

Em 2008, eles acreditaram no discurso de mudança. Hoje, em muitos predomina a apatia.
Eleitores que criaram uma grande mobilização em prol de Barack Obama há dois anos agora veem falta de iniciativa -e coragem política- do presidente.

Por isso, mesmo se ainda votam democrata, não sentem mais ânimo de ajudar. Pesquisa divulgada pela Universidade Harvard na semana passada mostra que apenas 18% dos jovens entre 18 e 29 anos pretendem se engajar na eleição de 2 de novembro.

Em Nova York, Los Angeles, Washington e Cambridge (Massachusetts), a Folha colheu depoimentos de ex-agitadores obamistas que explicam por que estão se sentindo decepcionados.

"Governo desiste de questões que defendeu na campanha"

Cristina Fibe de Nova York

Foi a primeira vez que trabalhei diretamente em uma campanha.

Fiz não só porque queria ser parte de um momento histórico, mas também porque Obama parecia ter uma nova abordagem para lidar com as questões que enfrentávamos como um país.

Trabalhei como voluntário, no "Harlem for Obama" [no bairro do Harlem, onde há forte comunidade negra]. Gastava de duas a quatro horas por semana nisso.

Esperava que Obama levasse alguma sanidade e alguma moderação a Washington. Esperava que ele ajudasse a trazer os dois partidos dominantes para a mesa.

Também achava que as políticas ajudariam na recuperação da economia.

Acredito que o governo poderia estar indo muito melhor. Estou continuamente desapontado ao ver a administração desistindo de muitas das questões que defendeu durante a campanha.

A hesitação para levar adiante a reforma imigratória, por exemplo. Parecem ter medo de escolher posição em discussões controversas.

Mas acho que há tempo para Obama se recuperar. O principal é que ele coloque em prática políticas que reduzam o desemprego.

Gosto de algumas reformas que ele fez até agora, como a da saúde, mas espero que faça algo até o fim do mandato que coloque as pessoas de volta ao trabalho.

Seria difícil me envolver novamente em uma campanha, porque me parece que os políticos estão interessados só em manter seu cargo.

Nosso sistema não é feito para manter um partido no poder indefinidamente, mas os políticos parecem agir para isso. É desanimador.

Planejo votar em novembro, porque as alternativas que vi apresentadas pelo país todo são inaceitáveis.

Devo apoiar os democratas, mas não estou envolvido com o partido.

"Obama não insistiu tanto quanto poderia. Cedeu demais"

Luciana Coelho em Cambridge

Estávamos todos chorando quando ele foi eleito.

Lembro que fui a um dos eventos daquela noite, abracei estranhos e chorei com eles por horas. Todas as possibilidades existiam.

Agora, vimos o limite do sistema democrático nos EUA. Barack Obama tinha um mandato enorme.

Um número histórico de democratas foi eleito em 2008. Passados dois anos, as coisas que os elegemos para fazer não foram feitas.

Obama não insistiu tanto quanto poderia. Não falou o bastante sobre os problemas. Cedeu demais.

Se tentasse e não conseguisse, seria mais motivador para seus eleitores, teríamos incentivo para ir às ruas.

As pessoas reagem a posições firmes. O Tea Party gera entusiasmo assim.

Obama e os democratas foram eleitos nas costas do trabalhismo, e não vimos nenhuma proposta de lei trabalhista ainda. Provavelmente perdemos a chance e o capital político por dez anos.

Muitos estudantes podem até ter votado em Obama maravilhados com a ideia de mudança, mas muitos eleitores queriam algum benefício real vindo de seu voto. Isso é racional, não idealista. Aí você não vê nada.

Para que votar de novo?

Mesmo que ele tenha melhorado o governo nos EUA em quase todos os aspectos, nenhuma dessas melhoras tem força para incentivar as pessoas.

Os problemas são muito maiores, e precisamos ver ainda iniciativas que mudem de fato a vida das pessoas, como um programa de empregos federal.

Não é sempre que temos um ano como o da eleição do Obama.

E aí, quando vamos falar das proteções trabalhistas? Ou de melhores leis ambientais? Ou de uma reforma
mais profunda na saúde?

Depois dessa eleição legislativa é que não vai ser.

"Devo votar, mas com muito aborrecimento, nos democratas"

Fernanda Ezabella de Los Angeles
Sou um entusiasta de Barack Obama. Mas, obviamente, não estou tão animado como estive em 2008.

Se ele tentar a reeleição, penso em ajudá-lo de novo, caso a disputa seja acirrada. Porém, para as eleições legislativas de 2 de novembro, não quero envolvimento.

Talvez vote, com muito aborrecimento, nos candidatos democratas ao governo da Califórnia e ao Senado.

Em 2008, a situação era diferente. Queria me envolver. Estava cansado da administração de George W. Bush [2001-2009] e esperançoso das mudanças prometidas por Obama.

Tive a oportunidade de ir a Denver para uma convenção do Partido Democrata e ver os reis da legenda dando grandes discursos.

Quando Obama falou, percebi que alguma coisa estava acontecendo e queria ajudar.

Gosto do seu estilo de discurso, da maneira como ele envolve o público e da sua mensagem. Acho que nosso país precisava de uma nova direção. Hillary Clinton representava o velho jeito, mais um Clinton.

Foi assim que acabei embarcando para o Novo México, dois dias antes da eleição para presidente, para monitorar as urnas com cerca de outros 150 advogados.

De alguma forma, meu desencantamento com Obama me mantém longe das eleições de agora.
Quando os democratas tiveram maioria no Congresso, perderam a oportunidade de fazer coisas. Não acredito que terão a maioria de novo.

Obama fez coisas. Conseguiu passar o pacote de estímulos econômicos, foi histórico. E conseguiu a reforma da saúde, embora não do jeito que eu gostaria, mas também foi algo grande.

Prometeu que sairia da base de Guantánamo [em Cuba], do Afeganistão.

Enfim, vamos dar um tempo a ele, estamos todos ainda esperando.

"O presidente não faz um bom trabalho de energizar sua base"

Andrea Murta de Washington
Em 2007, fui a um comício do Obama em Nova York, levada por uma colega. Não sabia o que esperar, mas fiquei totalmente alucinada.

Nunca antes tinha me envolvido em política, mas decidi atuar como voluntária na campanha para as primárias e acabei me tornando coordenadora em Nova York para a eleição geral.

Foi algo muito inspirador, uma experiência maravilhosa. Eu tentava transmitir o senso de responsabilidade pelo futuro a jovens eleitores.

O dia da eleição foi incrível. Eu chorava histericamente. Estava muito orgulhosa de tudo o que fizemos. Alcançamos algo enorme. Eu sentia que o céu era o limite.

Em relação a Obama, porém, fui me frustrando nos últimos dois anos.

Fiquei feliz de ver a reforma do sistema de saúde ser aprovada, mas queria que fosse mais forte.

Estou definitivamente decepcionada de ver que o governo não vem fazendo um bom trabalho em energizar seus apoiadores de base.

Não avançamos na reforma migratória, não melhoramos o consumo de energia.

Sei que o presidente não pode fazer tudo sozinho, mas por isso gostaria que tivesse nos incluído na luta.

Não basta mandar um e-mail às pessoas. As mensagens dos últimos dois anos têm sido muito rasas. A operação inteira é rasa.

Fundamentalmente, não tiveram fé nos apoiadores. Eu esperava que agissem no governo da mesma forma que agiram na campanha, mas isso não aconteceu.

Eu sou progressista, mas não vou fazer uma campanha vazia só por um partido.

Quero ver propostas. Penso que o clima da campanha atual é muito tóxico.

Não gosto do extremismo do debate. Estou satisfeita por não estar fazendo parte dela. Não acho que representa o que é o país.

Fonte: Folha de S. Paulo
Imagem: Internet

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