terça-feira, 19 de outubro de 2010

Cuba: Rappers expõem em rimas a frustração cubana

Grupo de hip hop faz a cabeça de boa parte dos jovens cubanos ao denunciar os problemas da Revolução dos irmãos Castro

Leda Balbino, enviada especial a Havana, Cuba - G1


Foto: Divulgação/ Emetrece Productions
Os rappers El B e El Aldeano: O rap é guerra, dizem as tatuagens idênticas

Os discursos prolixos de Fidel e a discrição silenciosa de Raúl não fazem a cabeça de muitos jovens de Havana. O que eles ouvem muito em CDs e DVDs que circulam clandestinamente na capital cubana e na internet são as palavras de Los Aldeanos que, segundo muitos, é o grupo de hip hop underground da Ilha que mais fala abertamente sobre os problemas da Revolução dos irmãos Castro.

Com suas músicas rap, Los Aldeanos denunciam a deterioração nas ruas de Havana, a corrupção, as restrições impostas pelo regime e indicam com todas as letras que o modelo cubano não funciona.

Se alguém pergunta sobre Los Aldeanos, um jovem cubano terá o maior orgulho de mostrar as canções. Em meio a dezenas de músicas no celular que ganhou do pai que vive no Brasil, Joel pede que espere enquanto as procura. Encontra uma balada, outra menos ácida, e só fica contente quando acha a canção mais crítica. “Só quem é cubano entende totalmente o que eles dizem”, afirmou.

Outros não se incomodam de ligar seu computador velho, de tela tremida, para mostrar uma cópia clandestina do documentário Revolution, em que o diretor Mayckell Pedrero Mariol conta a trajetória do grupo e faz uma radiografia da cena hip hop de Cuba. O documentário ganhou a 9ª Mostra de Jovens Realizadores de Cuba deste ano, que ocorreu entre 23 e 28 de fevereiro em Havana.

Enquanto ouvem suas músicas, os cubanos acompanham o ritmo com a cabeça e, a cada xingamento ou denúncia, dizem: “É isso mesmo.”

Como não há mercado oficial para sua produção, além dos CDs fabricados de forma amadora e vendidos no mercado negro, a arma de propaganda do grupo é o boca a boca. Um cubano avisa o outro, que por sua vez passa a informação ao seguinte, sobre os shows de “hip hop undergroud” que ocorrem na ilha, e neles Los Aldeanos poderão estar.

A dificuldade para confirmar sua presença faz parte da estratégia para escapar de uma eventual repressão do regime, que não vê com bons olhos o discurso inflamado, ainda mais cadenciado no ritmo que ascendeu do submundo do imperialismo americano.

Sem propaganda oficial, Los Aldeanos conseguiram reunir em abril mais de 2 mil no cine-teatro Acapulco, no centro de Havana, para comemorar seus sete anos de existência. Como a casa lotou, 200 pessoas ficaram de fora.

O grupo foi formado em 15 de fevereiro de 2003 pelos tatuados “raperos” (rappers) Bian Oscar Rodríguez Galá (El B) e Aldo Roberto Rodríguez Baquero (El Aldeano). Em uma entrevista veiculada no YouTube, a dupla se classifica como um “projeto independente – de tudo”, afirmando que fazem “música e arte contestatórias”.

Intercaladas algumas vezes por palavrões e expressões chulas, as rimas das músicas são diretas: "Sou de uma sociedade amedrontada que escuta os que a amordaçam com sua falsa liberdade" ou "Muitos estão mortos ou em cana, preferem morrer pelo sonho americano do que viver o pesadelo cubano".

Quem anda pelas ruas que exalam o esgoto de Havana, onde poucos prédios restaurados convivem lado a lado com construções deterioradas nas quais se amontoam pessoas sem perspectivas, as rimas de Los Aldeanos apenas explicitam a frustração da maior parte dos cubanos com a realidade do país.

Embora critiquem abertamente o regime, Los Andeanos dizem ser revolucionários, termo apropriado pelo regime para caracterizar seus partidários. "Falar da realidade cubana é nossa maneira de fazer revolução. Não podemos falar de outra realidade que não conhecemos, porque por sorte ou desgraça só conhecemos esta", disse El B em entrevista veiculada pelo site Cubaencuentro.

Sucesso entre grande parte da juventude cubana, Los Aldeanos, porém, não são unanimidade. Alguns os caracterizam de "jovens marginais", enquanto outros simplesmente os desconsideram por não gostar de rap. Apesar disso, reconhecem o impacto do grupo.

Sob condição de anonimato, uma cubana conta ter assistido ao documentário Revolution em fevereiro, quando foi exibido no Cine Charles Chaplin, que tem capacidade para quase 1,5 mil espectadores. "O cinema estava lotado e, quando o documentário acabou, as pessoas aplaudiram. Eu chorei. É sempre uma catarse quando alguém expressa nossa realidade de forma crítica."

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