sábado, 23 de outubro de 2010

Afinidades entre um ateu e um cristão

ALUNO E MESTRE
Os ingleses Philip Pullman (à esq.) e C.S. Lewis fazem parte da linhagem da literatura fantástica de Oxford

Os romances O bom Jesus e o infame Cristo (Cia. das Letras, 184 páginas, R$ 37, tradução de Cristian Schwartz), de Philip Pullman, e Além do planeta silencioso (WMF Martins Fontes, 220 páginas, R$ 36, tradução de Waldéa Barcellos), de C.S. Lewis, são de gêneros diferentes e escritos em tempos distintos. O primeiro, uma parábola, foi lançado no Reino Unido neste ano. O segundo faz parte de uma trilogia de ficção científica, publicada originalmente em 1938, que só agora chega ao Brasil – será seguido por Perelandra (1943) e Uma força medonha (1945), a ser lançados em 2011 e 2012. O que os dois lançamentos têm em comum é abordar questões de fé por meio de narrativas repletas de fantasia e colorido verbal. Ambas as obras tocam em problemas metafísicos. A primeira coloca em dúvida a história de Jesus Cristo e oferece uma nova versão para os Evangelhos. A segunda reflete sobre a espiritualidade limitada dos terráqueos e sua desumanização.

O inglês Philip Pullman, de 64 anos, considera-se seguidor do irlandês C.S. Lewis (1898-1963). Eles não se conheceram e professaram crenças opostas: Pullman se notabilizou como pregador ateísta, ao passo que C.S. Lewis se tornou um defensor dos valores cristãos. No entanto, suas trajetórias se cruzaram em um ponto: o círculo de Oxford. Não se trata só de um território físico. Os dois intelectuais não apenas se formaram, moraram e deram aulas na Universidade de Oxford, como também compartilham uma tendência literária que paira pelas vielas e pelos prédios góticos de Oxford desde o início do século XX: romances fantásticos ligados à filologia clássica (estudo das fontes históricas da linguagem), à criação de línguas excêntricas, à volta à Idade Média, ao debate teológico e à imaginação infantil. Isso fez com que ambos fossem menosprezados pela crítica, mesmo que exibissem credenciais de sábios.

C.S. Lewis foi professor de medievalismo em Oxford por 30 anos. Quando entrou na universidade, em 1924, era ateu. Por influência do filólogo e escritor J.R.R. Tolkien (1892-1973), aderiu ao cristianismo. Lewis e Tolkien fundaram o grupo dos “inklings” (“insinuação”). Os “insinuantes” se reuniram dos anos 20 aos 40, nas manhãs de terça-feira no pub Eagle and Child. A turma era formada por uma maioria cristã e alguns céticos. Professavam a crença na fantasia e no escapismo, movidos, como disse Lewis, pela seguinte constatação: “O amor pelo conhecimento é um tipo de loucura”.

A loucura dos oxfordianos se tornou popular com o passar do tempo e a mudança do gosto dos leitores. Depois do êxito da Trilogia cósmica, C.S. Lewis ganhou glória com As crônicas de Nárnia, série de sete romances infantojuvenis escritos entre 1949 e 1954 sobre um mundo em que os animais não apenas falam, mas pregam sermões. O livro foi traduzido para 30 idiomas, vendeu centenas de milhões de exemplares e foi adaptado para a televisão e para o cinema. Entre 1954 e 1955, Tolkien lançou a trilogia O senhor dos anéis, saga em que recria o cristianismo em um mundo distante e um idioma estranho – também megassucesso de leitura e no cinema –, além de ter se tornado a base de um culto paracristão.

Além do planeta silencioso narra uma viagem a Marte. O planeta é habitado por povos primitivos, com língua e costumes próprios, chamado de Malacandra. O protagonista foi baseado em Tolkien. Como ele, Elwin Ransom é um filólogo alto, desconjuntado e apaixonado pelo estudo de línguas exóticas e pela natureza. E nada mais exótico que Malacandra, com suas florestas cor-de-rosa, águas azuis efervescentes e seres inteligentes, altos e finos como anêmonas. Ransom aterrissa lá contra a vontade. Foi capturado por dois colegas de Cambridge: o oportunista Devine e o professor Weston. Devine quer explorar ouro em Malacandra, e Weston quer escravizar os nativos em uma expansão interplanetária da humanidade. Ransom é abduzido e trava amizade com Oyarsa, o líder do planeta. Conversam sobre o destino do Universo, a espiritualidade do espaço sideral e a danação da Terra, o planeta silencioso, incapaz de interagir com o cosmo divino. Os romances seguintes vão no mesmo diapasão. Em Perelandra, Ransom estuda o renascimento da história de Adão e Eva no planeta Vênus. Em Uma força medonha, o filólogo combate uma ciência capaz de destruir os valores humanos. Muitos veem a Trilogia cósmica como a metáfora da resistência de Tolkien à modernidade.

Para fazer parte do mundo alternativo de Oxford, Pullman se aproximou da obra de Lewis – e, como previa, fez sucesso. Estudou em Oxford de 1963 a 1968. Nos anos 70, deu aula para crianças e tomou gosto por contar histórias. De 1988 a 1995, lecionou em Oxford e se dedicou à ficção infantojuvenil. Inspirado em C.S. Lewis, criou a série Fronteiras do Universo, formada pelos romances A bússola de ouro (1995), A faca sutil (1997) e A luneta âmbar (2000), além do guia A Oxford de Lyra (2003). A bússola de ouro foi adaptada para o cinema em 2007. Fracassou. Um dos motivos foi a campanha de instituições cristãs contra o filme, que, segundo elas, refutava Deus. Pullman tem-se devotado a construir um paraíso antiteológico. Subverte, com algum prazer, as crenças do mestre Lewis.

O bom Jesus e o infame Cristo é um saboroso texto “adulto” de Pullman, embora ele afirme escrever fábulas para todas as idades. Desta vez, elaborou uma teoria conspiratória para a história do fundador da Igreja Católica. Nessa versão, o devoto vai se sentir em um planeta estranho – e ameaçado em suas convicções. Maria dá à luz os gêmeos Jesus e Cristo. Jesus é malandro, expansivo e bom orador; Cristo, reservado e cheio de fé. Jesus passa a empolgar os fiéis e a provocar ódio entre os romanos, pois se apresenta como o Messias, o filho de Deus. A história leva Jesus ao Monte das Oliveiras, onde constata que Deus não existe. Mesmo assim, segue a pregar. Cristo observa tudo à distância, quando um desconhecido o incumbe de denunciar o irmão, para assim criar um mártir que eternizará a religião. Cristo aceita o papel que, na história original, coube a Judas. Seu irmão sobe ao calvário e é crucificado. Cristo se afasta aliviado. Mas o desconhecido o chama para outra missão: vestir-se como o irmão e fingir que ressuscita diante dos apóstolos. O falso milagre fortalece a congregação de fiéis – e leva Cristo a inventar mais e mais histórias. “Sem a história, a Igreja não haverá, e, sem Igreja, Jesus será esquecido”, diz Cristo.

O protagonista dessa paródia do Novo Testamento – acusada de herética pela comunidade cristã – chega à mesma constatação que Ransom, em sua viagem de volta à Terra, a bordo de uma nave esférica, cercado das cores místicas do espaço sideral: religião e fantasia são idênticas, e a distinção entre história e mitologia não faz sentido fora da Terra. E do círculo insinuante de Oxford.

Luís Antônio Giron - Época

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