quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O enigma Ingrid Betancourt


Ivan Lessa

Colunista da BBC Brasil

Sábado passado, sem coisa melhor a fazer, para variar, eu fui navegar pelas águas turbulentas de nossas publicações informatizadas. Numa delas, acho que era da revista Veja, dou com a Fernanda Montenegro, ora gozando de grande sucesso com a telenovela Passione, lendo, muito compenetrada, trechos diversos do livro da franco-colombiana Ingrid Betancourt lançado agora no Brasil, sob o título de Não há silêncio que não termine e o subtítulo Meus anos de cativeiro na selva colombiana. São 453 páginas e quem editou foi a Companhia das Letras.

Ingrid Betancourt. Implico solenemente com essa senhora. Não posso dizer, como dizem as pessoas, “é uma coisa de pele”. Não é. É o resultado de um acúmulo de informações. Passo adiante o que sei e sublinho que o que sei é o que andei lendo. Dentro e fora da Net (Ela está no YouTube).

Para quem está chegando agora, dou um pequeno resumo do cativeiro de Ingrid (e peço logo desculpas pelo excesso de intimidade). Ingrid Betancourt Pulecio nasceu em Bogotá no dia de Natal de 1969. Elegeu-se senadora e ativista anticorrupção. No dia 23 de fevereiro de 2002, quando fazia campanha para as eleições presidenciais, Betancourt foi presa pelo grupo guerrilheiro conhecido como Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e permaneceu cativa até o dia 2 de julho de 2008, quando o ministro da Defesa do país, Juan Manuel Santos, anunciou a libertação no sul do país pelo Exército colombiano de quinze reféns, entre os quais Ingrid Betancourt, três cidadãos norte-americanos e onze agentes policiais e militares colombianos, alguns cativos há mais de dez anos.

O resgate, pelo que li, ocorreu graças à infiltração do Exército no comando das Farc, e foi feito por helicóptero, sob o pretexto de levar os reféns para uma inspeção humanitária. Operação das mais perigosas, graças a um processo de infiltração nas altas hostes das Farc, e impressionantemente bem sucedida. Não foi derramada uma gota de sangue.

O presidente Uribe, à época, garantiu que “o Espírito Santo guiou cada passo dos heróis, sob a proteção de Nosso Senhor e da Virgem Maria”. Ele é que sabe. Muitos dos reféns alegaram também terem passado boa parte de seu cativeiro rezando o terço. Ingrid, católica prescrita, segundo declarações seguidas à sua libertação, também fez uso do terço, empregando um rosário de madeira por ela esculpido e frisou que o resgate, na sua opinião, “fora um milagre da Virgem Maria.”

Ingrid Betancourt, do cativeiro foi direto para a França, sem escalas, não se detendo na Colômbia nem para fazer campanha nem para agradecer nada a ninguém. Essa honra coube, primeiro, claro, à Virgem Maria, e, depois, ao presidente Nicolas Sarkozy.

A antiga refém passou a ser capa de revista e candidata a prêmio Nobel. Seu tempo, dividido entre Paris e Nova York. Muita entrevista, muita capa de revista. Agora mesmo, em junho deste ano, Ingrid Betancourt exigiu do governo colombiano uma indenização de 13 milhões de pesos colombianos, ou seja, US$ 8,6 milhões, sob a alegação de que seu cativeiro resultara de uma “negligência oficial”. O governo colombiano mostrou-se algo triste com a exigência. Ao que parece, a coisa está parada nesse pé. Acho que tudo depende da venda do livro.

Livro. Interessante também é o fato de que um americano também cativo, Northrop Grumman, juntamente com os empreiteiros Marc Gonsalves, Keith Stansell e Thomas Howell, que, como Íngrid Betancourt, também foram mantidos cativos, publicaram um livro escrito, presume-se, a oito mãos, e intitulado Out of Captivity (Fora do cativeiro), no qual falam de seus 1967 dias de cativeiro (de 2003 a 2008) nas selvas da Colômbia.

Não são generosos para com Ingrid Betancourt. Nem um pouco. Muitíssimo pelo contrário. Descrevem seu comportamento como refém das Farc como egoísta, sempre achando que merecia melhor tratamento que os outros cativos devido à sua posição política e social.

Os americanos alegam ainda que o tempo todo Betancourt exigiu e conseguiu mais do que sua ração da comida, que era pouca e igual para todos. As mesmas exigências foram feitas quanto a roupas e espaço pessoal. Stansell, a uma certa altura, diz que pode perdoá-la, porém respeitar, de jeito nenhum. Pois Ingrid, segundo ele, era dominadora, egoísta, capaz até de roubar comida dos companheiros.

No livro, os americanos alegam também que durante seu cativeiro, Betancourt teve um “caso” com outro cativo, Luis Eladio “Lucho” Perez. Outra alegação seríssima também é a de Stansell, de novo, dizendo que Betancourt dissera aos guardas das Farc que os americanos trabalhavam para a CIA e todos tinham um microchip implantado nos corpos e que deveriam observados com a maior atenção. Stansell acrescenta: “Graças a ela, poderíamos ter sido executados”. E conta ainda que ela ajudou os guerrilheiros das Farc a revistar os americanos três dias antes da libertação.

Ingrid Betancourt recusou-se a comentar as alegações dos americanos. Agora, com seu livro nas boas livrarias do ramo dos bons países do mundo, talvez essa história fique mais claro. Ou não. De qualquer forma, o mínimo – e quando eu digo mínimo é porque é mínimo mesmo – que se pode dizer é que a dama em questão é, na falta de uma palavra melhor, um enigma.

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